AS SUBJETIVIDADES E OS LAÇOS AFETIVOS NA MODERNIDADE LÍQUIDA

CARNEIRO, Luciana.
SOUZA, Thayná Thamires Alves.
Orientadoras: RIBEIRO, Karla Cristina Rocha; CAMARGO, Neuci Leme.
PSICOLOGIA/UNIMAR.

A característica da sociedade contemporânea é o consumo incessante. O indivíduo quer adquirir, desenfreadamente, tudo o que lhe é apresentado como desejável e com a condição de pagar por essa aquisição. Em vista disso, os vínculos afetivos estão se reconfigurando, pois qualquer outra forma de que não envolva o capital é desvalorizada. Bauman (2010) afirma que o consumismo transforma seres humanos em meros consumidores, rebaixando a um plano inferior qualquer outro modo de vida. O mesmo autor (2008) ressalta que, na sociedade de consumidores, o consumo precisa ser uma vocação, um direito, um dever humano que não permite exceção. Sendo assim, o vínculo possível na sociedade atual é representado pelo consumo. O indivíduo identifica-se com o outro por meio da compra.

Freud (1921/2011) ressalta que, por uma série de questões sociais ocorridas ao longo da formação da civilização, o indivíduo inserido à massa sente a necessidade de um líder que lhe dê a ilusão de que todos são igualmente amados por ele. Também se ludibria ao pensar que esse líder o ama mais que aos outros. Percebe-se, então, que há dois laços libidinais na massa: o que liga o indivíduo a outro indivíduo e o que o liga ao líder.

Por esse tipo de funcionamento psíquico, entende-se que o líder acaba por agir como um Super-eu, o representante das normas e dos valores sociais. Ele irá conduzir a massa, fazendo com que todo o coletivo atue de acordo com suas próprias regras e irá rechaçar os que agirem contra elas. Como o Super-eu não permite a alteridade, o sujeito inserido nela é impedido de exercer sua individualidade, sendo “banido” do grupo caso pense diferente do líder.

A cultura de massa, ao segregar o outro, considerado diferente, age de maneira intolerante e violenta. A pulsão que o move é agressiva. Sendo assim, os indivíduos estão sendo levados a uma construção psíquica que supervaloriza a pulsão de morte.

Bauman (2008) ressalta que a economia, antes regida pelo trabalho, era representada por uma sociedade de produtores, que visava satisfazer as necessidades individuais. A transição para esta sociedade atual ocorreu quando a economia passou a ser regida pelo consumo. O desejo, nesse caso, passa a sustentar a economia. Pode-se entender que a sociedade de produtores pertencia à fase sólida. A época moderna estava a favor da pulsão de vida, pois as necessidades individuais eram a segurança, os referenciais, as certezas e as rotinas comportamentais, ou seja, os processos civilizatórios referidos por Freud (1930/2010), que causam o mal-estar ao indivíduo submetido ao outro.

A sociedade de consumidores, no entanto, está a favor da pulsão de morte. Bauman (2001) utiliza a metáfora de que a sociedade está numa maratona cujo prêmio é sua permanência nela. Então, a economia capitalista tem feito com que o indivíduo permaneça no gozo provindo da pulsão de morte, fazendo com que ele repita sempre a mesma situação. A cultura consumista não permite a procrastinação, a satisfação tem que ser imediata. A sugestão dessa ideia de urgência é oferecida o tempo todo. O indivíduo deve consumir ou então estará fora da massa. O advento tecnológico leva à ilusão de que se pode antecipar o futuro, de que não é necessária a espera, ou seja, de que se pode dominar o tempo.

O conceito de ideal de Eu, apresentado em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921/2011) por Freud, é algo que está fora do sujeito, é o representante da cultura. O indivíduo precisa do outro para fortalecer esse Eu, pois, se esse algo não existe, ele irá procurá-lo e, desse modo, vai se estruturando. Permanecer na condição idealizada torna-se comprometedor, pois o Eu nunca conseguirá atingir o ideal, enfraquecendo-se, visto que é o Eu o agente fortalecedor do ideal. Ele atribui a esse objeto todas as perfeições imaginárias vividas na fase narcísica.

“A conhece a identificação como a mais antiga manifestação de uma ligação afetiva a outra pessoa" (FREUD, 1921/2011, p. 60). Na Modernidade Líquida a identificação está plenamente idealizada. Existe uma distância muito grande entre o Eu real e o ideal do Eu. A cultura mostra para o indivíduo algo que ele não é, mas que pode vir a ser no futuro, dá-lhe parâmetros, muitas vezes, irreais. A busca por um corpo perfeito vem sendo alimentada pela mídia como se fosse algo que toda mulher almeja, não importando sua classe econômica, sua estrutura genética, sua idade e até mesmo os riscos à saúde. Ser bonita é uma exigência, como se todas as mulheres pudessem alcançar os padrões de beleza socialmente estabelecidos. Muitas vezes elas elegem como ideal o corpo de uma modelo de capa de revista que foi submetido a um programa de computador, corrigindo todas as suas “imperfeições”. Outro exemplo de ideal apresentado nos tempos atuais está presente na redes sociais. A felicidade alheia é muito mais sedutora, a vida do outro é vista como perfeita, a felicidade é superestimada. O indivíduo inserido na massa não está ligado ao outro por identificação, mas por idealização. Ocorre então uma projeção superestimada que tende a menosprezar o Eu. O objeto superestimado é o próprio Eu projetado no objeto. O Eu vai definhando em favor do objeto, pois quem infla o objeto é o Eu, ou seja, quem mantém essa idealização é o próprio Eu, porém de forma inconsciente e às custas de sua própria estruturação.

De acordo com a análise feita por Ribeiro (2012), na sociedade regida pelo consumismo, a indústria cultural figura como responsável ideológica pela propagação do discurso do capitalista, cujo objetivo final é fragilizar os vínculos afetivos e enlaçar os indivíduos às falsas necessidades de compra. Para que todos permaneçam nesse universo da compra-uso- descarte, é necessário que o discurso mercadológico pareça individual, mas, na verdade, seja totalizador e padronizador de subjetividades. Daí seu caráter ambíguo e cínico, que, por mais manifesto que seja, permanecerá oculto nas artimanhas da publicidade. Assim, a verdade é que o shampoo feito para você é o mesmo de milhões de outras mulheres, que não desejam apenas ter os cabelos lavados – o que seria a função do produto – mas sim, ter o reconhecimento e a veneração dos que estão a sua volta, fazendo-a sentir-se única e privilegiada. A propaganda não vende o produto por seu valor de uso, mas pelo seu poder enfeitiçador de transformar uma pessoa comum num artista de cinema ou musa de escola de samba, agudizando a questão da debilidade egóica, típica do início da vida (fase narcísica primitiva). Essa situação de padronização social acarreta transformações subjetivas e comportamentais importantes nos indivíduos que compõem a totalidade.

Segundo Rozitchner (2003), a gênese da culpa como sentimento reparador está intimamente relacionada à castração, ao Édipo, ao ideal de Eu de uma autoridade de amor e à consciência moral.

No caso de haver a identificação com uma autoridade cruel, tirânica e totalitária, isso acarreta a formação de um Super-eu baseado na culpabilidade e na intolerância, pôr o indivíduo ter subjugado o Eu com severas críticas e reprovações. Essa identificação com a autoridade cruel funciona economicamente para o psiquismo como a identificação com o nada, pois do mesmo desamparo paterno será acometido o indivíduo que, impossibilitado de investimento amoroso, construirá um Super-eu cruel.

É como se o indivíduo estivesse “eternamente” remoendo uma perda inconsciente, absorvendo a violência vinda de fora, submetendo-se a um Super-eu tirano sem possibilidade de reação. Neste caso, existe um alto grau de sofrimento e um prejuízo (desordem) psíquico intenso, pois a economia libidinal está alterada e a favor do princípio do prazer. O indivíduo passará a ser, então, “estrangeiro em si mesmo”, um Eu vítima de autorreprovações e autopunição, identificado com um objeto fantasmático e perdido.

Para esse tipo de indivíduo, a plena satisfação significa a repetição compulsiva, a procura do êxtase a qualquer preço, o prazer na dor (sadomasoquismo), a liberação do instinto de morte, a vivência do trauma e uma vinculação libidinosa mortal com a ideologia da indústria cultural. Por consequência, esse Eu, minimizado em suas qualidades e potencialidades, passa a ser governado exclusivamente pelo ideal do Eu construído com a mercadoria. Suas pulsões amorosas estão sufocadas e em declínio, enquanto as pulsões agressivas estão ativadas pela cumplicidade com a violência social. O Super-eu da culpabilidade, funciona, portanto, de maneira sádica, de forma primitiva e cruel, deixando o psiquismo à mercê da sociedade do consumo.

Na sociedade atual, a moeda corrente tem sido a permissividade, o consumismo, a ruína dos ideais e a falência da autoridade paterna. Assim, o seu grande paradoxo, segundo Garcia (2001), é que, apesar de estarem imersos em uma hiper-estimulação tecnológica, pelo desenvolvimento dos meios mediáticos de informação, os homens estão mais do que nunca impossibilitados de absorver e elaborar conhecimentos, porque esses excessos extrapolam sua capacidade psíquica e funcionam para a mente de modo semelhante ao trauma (FREUD,1923/2011).

Os vínculos humanos na atual sociedade estão se configurando líquidos. Nessa sociedade de consumo capitalista, o que se percebe é um ser humano sem referenciais fortes que o guiem na constituição de um Eu bem estruturado. Perdeu seus referenciais de felicidade e de autonomia, tornou-se dependente dos valores da sociedade em que está inserido, identificando-se com o outro pelo consumo. O laço que os une é, acentuadamente, o consumo. E essa ideia de compra muda a todo instante. Embora seja necessária para alimentar o capitalismo, traz um imenso vazio ao homem.

O líder da massa na Modernidade Líquida é o mercado, exigindo o consumo de objetos, serviços, lugares, tempos, pessoas, imagens, ideais, modos de vida, sentimentos e estados de espírito. Ele compra-usa- descarta e novamente o ciclo se repete. Sendo assim, o mercado é o Super-eu do desamparo. Faz promessas de amor, de satisfação, exige o consumo para ser “amado” por ele e não oferece nada em troca. Não há retorno libidinal do líder, há somente o vazio, porque ao mesmo tempo que a sociedade com a tecnologia nos dá a ideia de conforto, de segurança, de felicidade, internamente estamos esvaziados, justamente por conta da liquidez dos vínculos afetivos. Se assim fosse, o Eu dos indivíduos na massa se enriqueceria pelo retorno amoroso do objeto e, ao introjetá-lo, receberia de volta a libido investida anteriormente. A corrida ao prazer pela mercadoria logo se esvanece porque o Eu se empobrece ao se dar por inteiro ao objeto sem receber nada em troca. Afinal, a mercadoria é algo inanimado e incapaz de retorno afetivo, o que definitivamente seria o papel de outro ser humano.

Há uma discrepância entre a questão econômica e a questão humana nesse sistema social: ao mesmo tempo em que se alcançam níveis inimagináveis de tecnologia, conforto e produção, mais reificados, descartáveis e consumistas os indivíduos devem ser para sustentar as estruturas de tal sociedade.

O Super-eu, entregue ao imperativo do gozo, relaciona-se com o consumismo desenfreado, com a repetição traumática. Tem-se, então, uma sociedade que se comporta como um recém-nascido: intolerante, narcísico e, acima de tudo frágil.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

____________. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

FREUD, S. Psicologia das massas e análise eu e outros textos (1920-1923). Trad. Paulo César De Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Obras completas, volume 15.

__________. O eu e o id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925). Trad. Paulo César De Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Obras completas, volume 16.

RIBEIRO, K. C. R. A Sociedade Cínica Contemporânea e suas Injunções nas Subjetividades. 2012. 125 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Estadual de Maringá. Maringá, 2012.

Para citar este artigo:

CARNEIRO, Luciana; SOUZA, Thayná Thamires Alves; RIBEIRO, Karla Cristina Rocha; CAMARGO, Neuci Leme.  AS SUBJETIVIDADES E OS LAÇOS AFETIVOS NA MODERNIDADE LÍQUIDA. Publicado em: 6 de junho de 2017. Disponível em: <http://blogdapsicologia.com.br/unimar/2017/06/as-subjetividades-e-os-lacos-afetivos-na-modernidade-liquida/>. Acesso em: 19 de novembro de 2017.