O CASO SCHREBER E OS MECANISMOS DE DEFESA

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Autor: FARIA, Igor Martins Duca.
Orientadora: RIBEIRO, Karla Cristina Rocha.
Psicologia/UNIMAR.
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Ao analisar o caso isolado de Schreber através dos escritos deste último, Freud (1913/1996) traz à luz importantes contribuições acerca do funcionamento psíquico na dinâmica da paranoia, tanto em termos específicos quanto coletivos e metapsicológicos.

E, assim sendo, a compreensão destes aspectos revela-se útil para abordar os mecanismos de defesa do ego em particular.

Para Freud (1900/2014): “ A defesa entra em cena onde ocorre, na vida de representações, um caso de incompatibilidade entre uma representação individual e o ego” (p. 363). Percebe-se claramente, em Schreber, essa incompatibilidade sendo instaurada e o consequente levantar das defesas.

Em uma das passagens da obra em que comenta o caso, infere Freud (1913/1996):

 Não levantaremos, portanto, penso eu, novas objeções à hipótese de que a causa ativadora da enfermidade foi o aparecimento de uma fantasia feminina (isto é, homossexual passiva) de desejo, que tomou por objeto a figura do médico. Uma resistência intensa a esta fantasia surgiu por parte da personalidade de Schreber (p. 56)

Tal fantasia feminina somente poderia estar relacionada ao conteúdo de um desejo erótico homossexual. A pulsão sexual de Schreber estaria, portanto, voltada ao objeto masculino e, por este motivo, tal conteúdo tornara-se força incompatível para permanência nos arredores da consciência do indivíduo.

A julgar-se pela época em que viveu e pela ocupação política da qual se gabava tal homem, é presumível que a homossexualidade configurava-se tema bastante controverso e pouco aceito pela sociedade em geral. Tal conteúdo pulsional (libido com direcionamento homossexual) opunha-se com perspicácia à autoimagem egóica construida por Schreber, cuja manifestação apresentava-se em seus escritos. Restara ao indivíduo, assim, utilizar-se de seus mecanismos defensivos.

Inicialmente, em hipótese, fez uso do mecanismo da repressão para evitar tomar contato com aspectos indesejáveis de sua personalidade; aqueles tão plenamente refutados. O conteúdo da pulsão foi recalcado no inconsciente antes mesmo de ameaçar ser consciente, com o objetivo de que o sujeito socialmente prestigiado abstivesse-se de tratar diretamente de tal assunto desconfortante.

No entanto, apesar do aparente êxito, a temática regressara de outra forma, em período posterior, fazendo culminar o seu padecimento.

Em uma lógica compensatória, qual das duas formas de atuação revelara-se menos patológica para o indivíduo? Entrar em contato com o conteúdo pulsional rejeitado e reprimido, ou adoecer com ideias persecutórias e paranoicas? Provavelmente, como nos demonstra o grande arsenal de embasamento teórico psicanalítico, a segunda opção traria resultados mais amplamente satisfatórios para o momento de vida e para a personalidade do sujeito aqui reverenciado.

Significa dizer, portanto, que a paranoia revelou-se enquanto mal menor se comparado à tomada de consciência de um impulso homossexual. Possivelmente, este último movimento traria maior sofrimento psíquico ao homem que renunciava veementemente tais características próprias.

Em posteriores explanações, Freud (1913/1996) esmiuça o simbolismo presente nas relações objetais do sujeito, através da detecção da dinâmica de transferência estabelecida entre o paciente e seu médico, sentido subjetivamente enquanto homem persecutório.

A fantasia feminina, que despertou uma oposição tão violenta no paciente, tinha assim suas raízes num anseio, intensificado até um tom erótico, pelo pai e pelo irmão. Esse sentimento,na medida em que se referia ao irmão, passou, por um processo de transferência, para o médico, Flechsig. (p. 59)

A fantasia feminina, como dito anteriormente, equivale-se a uma fantasia de libido homossexual. Nestas condições, Flechsig transitara como figura substitutiva do irmão de Schreber, e através da transferência e dos mecanismos de defesa da projeção e do deslocamento, transformara-se significativo para a pulsão sexual latente.

As figuras persecutórias, na visão de Schreber, tratavam-se do médico Flechsig (substituto do irmão desejado, em deslocamento) e de um Deus divino e Todo-Poderoso. Este Deus, contudo, também era alvo de uma dinâmica transferencial e de deslocamento. Nestas condições, assumia o papel do pai de Schreber, cuja personalidade autoritária e de considerável autossuficiência assemelhava-se a atributos dignos de um Deus indiscutivelmente superior e amado. Portanto, entra em pauta não somente a temática da homossexualidade, como também refletem-se em tal caso específico, questões relacionadas ao desejo incestuoso nas vivências no seio familiar.

A organização sistemática de reação à tais realidades, assim sendo, torna-se imprescindível, e é esta a função primordial dos mecanismos de defesa do ego. Não se trata apenas de reagir, mas também de defender; ainda que esta defesa contribua massivamente para o estabelecimento de outros danos posteriores (como a paranoia, por exemplo, apreendida neste caso).

Em tal contexto, sucumbir às ideias paranoicas e de natureza psicótica pode ser significativamente mais saudável que, sem censuras, dar-se conta de desejos homossexuais e incestuosos e integrá-los através da elaboração.

 

A proposição ‘eu (um homem) o amo’ é contraditada por: (…) ‘Eu não o amo – Eu o odeio.’ Esta contradição, que deve ter sido enunciada assim no inconsciente, não pode, contudo, tornar-se consciente para um paranóico sob essa forma. O mecanismo de formação de sintomas na paranóia exige que as percepções internas – sentimentos – sejam substituídas por percepções externas. Conseqüentemente, a proposição ‘eu o odeio’ transforma-se, por projeção, em outra: ‘Ele me odeia (persegue), o que me desculpará por odiá-lo.’ E, assim, o sentimento inconsciente compulsivo surge como se fosse a conseqüência de uma percepção externa: ‘Eu não o amo – eu o odeio, porque ELE ME PERSEGUE.’ A observação não deixa lugar para dúvidas de que o perseguidor é alguém que foi outrora amado. (FREUD, 1913/1996, p. 71)

 

O caso de Schreber é interessante não somente porque revela características importantes de estados paranoicos, mas também porque apresenta exímia relevância para um estudo abrangente acerca dos mecanismos de defesa do ego.

Os objetos masculinos (paterno e fraterno) foram, inicialmente, dotados de uma catexia libidinal e amorosa intensa O desejo homossexual ergueu-se como realidade incompatível, cabendo ao ego organizar-se de modo a dominar o aspecto rejeitado em questão, através da repressão.

Quando o conteúdo tentara se tornar consciente ocorrera que, em hipótese e guardadas as particularidades deste caso; por sucessivas deformações o amor se transformara em ódio e este último, por projeção, fora sentido como atributo do objeto externo, justificando assim as perseguições (do médico, da figura Divina).

Posteriormente, através do mecanismo do deslocamento, o medo provocado pelo desejo relacionado aos objetos originais passara para outros secundários, de mesmo gênero e condutas similares como, por exemplo, o médico Flechsig e a figura de um Deus Todo-Poderoso, que resguardavam relativas semelhanças com os primeiros objetos originais e que contribuiram para a relação transferencial.

No entanto, quando aspectos reprimidos da pulsão sexual buscam adentrar o ego, estes se deparam com as resistências. Outro mecanismo, o da racionalização, por exemplo, também cumpre uma função satisfatória em tal contexto. Se, por fatores diversos, o sujeito entrar em um contato mínimo com a realidade incompatível, a defesa racionalizadora inibirá as reais motivações para a existência de determinado sentimento, conduta ou ideia no indivíduo.

As defesas parecem estar, portanto, formando um complexo sistema; estão interligadas e operando em conjunto. Estão a produzir, em fantasia, uma unidade; um todo coerente. De acordo com Fadiman e Frager (1986/2002): “o ego protege toda a personalidade contra a ameaça, falsificando a natureza desta. Os modos pelos quais se dão as distorções são denominados mecanismos de defesa” (pág. 19).

Em Schreber, podemos observar também a utilização do mecanismo da racionalização permeando toda a sua megalomania. Ao sonhar com o desejo de emasculação (transformar-se em mulher) para submeter-se ao ato da cópula com um homem, o sujeito atribuiu esta ideia não a um desejo subjetivo inerente a ele próprio, mas sim formulou uma teoria de que sua emasculação não estaria para satisfazê-lo. Esta, portanto, serviria para uma utilidade divina, já que seria ele próprio o meio fecundativo instrumentado por Deus para a geração de uma nova raça humana (Freud, 1913/1996). Ao criar tal motivação, o sujeito lograra suportar a natureza homossexual da pulsão sexual em topografia consciente e, dessa forma, não encontrara entraves sociais e pessoais para desaprovação.

Tão logo é presumível que, caso a inativação dos mecanismos de defesa ocorresse de maneira perenemente intransponível, o indivíduo se perceberia à mercê de suas próprias intempéries. Seria, então, plausível aludir a que Schreber poderia encontrar-se, nestes tempos relatados, acometido por uma neurose obsessiva grave com episódios paranoicos? Se houvesse rompido com a realidade de maneira permanente, conforme descrito e diagnosticado enquanto psicótico, seria possível que sua megalomania fruto de racionalização e sublimação pudesse existir?

Freud (1913/1996) admite a dificuldade em estabelecer um diagnóstico preciso quando da existência de sintomática paranoide. Segundo suas observações:

 

Somente em circunstâncias excepcionais, é que consigo obter algo mais que uma visão superficial da estrutura da paranoia – quando, por exemplo, o diagnóstico (que nem sempre é questão simples), é incerto o bastante para justificar uma tentativa de influenciar o paciente. (p. 21)

 

Assim, assume-se que o diagnóstico enquanto instrumento auxiliar de que se serve a avaliação, não sempre configura-se enquanto realidade irrefutável e inquestionável. No que concerne à temática da paranoia, de fato, torna-se tão pertinente quanto instigante pensar e hipotetizar acerca dos limites de abrangência do diagnóstico fornecido a Schreber e, inclusive, refletir sobre a possibilidade da ocorrência de um equívoco na configuração de tal diagnóstico enquanto premissa incontestável e intransponível; verdade cristalizada e fechada à ruptura.

Não seria adequado, por exemplo, pensar nos aspectos paranoicos experimentados pelo indivíduo enquanto surtos regulares derivados de uma neurose obsessiva grave, e não enquanto herdeiros de uma psicose ou personalidade estritamente psicótica?

Para Foucault (1975): “As psicoses, perturbações da personalidade global, comportam: um distúrbio do pensamento, (…) uma perturbação do controle da consciência, da perspectivação dos diversos pontos de vista” (p.10). Ainda segundo Foucault (1975), o indivíduo psicótico “permanece impermeável a qualquer discussão” (p. 10). De fato, não é o que ocorre com Schreber. O próprio fato de haver escrito sua autobiografia demonstra que este fora capaz de romper com sua enfermidade e, em tempo, utilizar-se da energia libidinosa e sexual para fins sublimatórios e atividades eruditas. E, inclusive, este simples relance induz à sua capacidade de preservação do processo secundário enquanto função egóica importante para o psiquismo e para a convivência em sociedade.

Tanto é relevante pensar nestas condições, quanto notificar-se de que, após a supressão de sua enfermidade, Schreber se recuperara significativamente e, por conseguinte, fora capaz de restabelecer vínculos com a realidade. Poderia um indivíduo estritamente psicótico, com diagnóstico fechado e consolidado, voltar-se para a realidade, recuperando-se de maneira tão significativa?

Freud (1913/1996) apresenta relato realizado pelo Dr. Weber, primeiro médico que se ocupara de Schreber, quando este último ainda encontrava-se enfermo.

Qualquer que fosse o assunto em debate (exceto, naturalmente, suas ideias delirantes), concernente a acontecimentos no campo da administração e do direito, da política, da arte, da literatura e da vida social – em resumo, qualquer que fosse o tópico, o Dr. Schreber mostrava interesse vivaz, mente bem informada, boa memória e julgamento sólido (p. 26)

 

As ideias delirantes já estavam presentes, inclusive, na época em que Schreber apresentara sua primeira enfermidade e, contudo, puderam ser observadas posteriormente com maior clareza. Tais ideias delirantes derivaram-se, possivelmente, de um surto psicótico (e, depois, assumiram caráter especificamente persecutório e paranoico), ou atribuem-se à psicose enquanto diagnóstico fechado? Nota-se, portanto, que Schreber mantém, apesar de suas ideias delirantes e alucinações, um certo vínculo restrito com a realidade, na medida em que pensa, reflete, exprime, preserva a lógica e também o interesse por sua erudição enquanto fruto do processo secundário e de funções egóicas, nestas ocasiões contempladas pelo Dr. Weber, em que ele já se encontrava“enfermo”.

A utilização reiterada de mecanismos de defesa para manter-se consideravelmente saudável, dentro do possível, revelara-se imprescindível para que se pudera evitar a desintegração do indivíduo frente às suas incompatibilidades dilacerantes e discrepâncias frente à autoimagem egóica instituida.

Sobre Saúde Mental, é possível inferir:

Saúde Mental é uma parte indispensável da Saúde, e têm sido definida pela OMS como “um estado de bem estar no qual cada indivíduo se dá conta de seus próprios potenciais, pode lidar com o estresse normal da vida; trabalhar produtivamente, e é capaz de contribuir com sua comunidade” (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2013, p. 9)

A enfermidade enquanto “dano menor” possibilitada através da ativação dos mecanismos de defesa, pode atuar de maneira a resguardar o indivíduo da autodestruição para que, subsequentemente, este se faça valer de sua integralidade quando se observarem restabelecidas as suas condições em saúde mental.

O uso dos mecanismos de defesa contribuiram, portanto, para a instauração de um conflito suportável na vida do indivíduo, a fim de que, posteriormente, este pudesse levá-la de uma maneira produtiva e, presume-se, plena.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FADIMAN, J.; FRAGER, R. Teorias da Personalidade. São Paulo, Harbra: 1986/2002.

FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos Parte I e II. São Paulo, Lafonte: 1900/2014.

FREUD, Sigmund. O caso Schreber, Artigos sobre Técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro, Imago: 1913/1996.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id e outros trabalhos. Rio de Janeiro, Imago: 1923/1996.

FOUCAULT, M. Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1975.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Investing in Mental Health: Evidence for action. Geneva, WHO Press: 2013.

Para citar este artigo:

FARIA, Igor Martins Duca; RIBEIRO, Karla Cristina Rocha. O CASO SCHREBER E OS MECANISMOS DE DEFESA. Publicado em: 13 de junho de 2017. Disponível em: <http://blogdapsicologia.com.br/unimar/2017/06/o-caso-schreber-e-os-mecanismos-de-defesa/>. Acesso em: 19 de novembro de 2017.