PERSONALIDADE PERVERSA: UM ESTUDO SOBRE OS CONSTITUTIVOS DA PERSONALIDADE PSICOPÁTICA

PERFEITO, Amanda Caroline da Silva.
CAMPANARI, Rayssa Sorrentino dos Santos.
Orientadora: TOMÉ, Marta Fresneda.
PSICOLOGIA/UNIMAR.
E-mail: [email protected]; [email protected]

O trabalho possui como foco os aspectos que influenciam a formação de uma personalidade psicopática, com o olhar voltado para a , utilizando-se também de conceitos da psiquiatria e psicologia jurídica para um melhor entendimento sobre este transtorno de personalidade.

Esta pesquisa se justifica para a ampliação do conhecimento sobre a mente psicopata, mostrando a formação de sua personalidade na infância, esclarecendo como vai se desenvolvendo até a vida adulta e quais recursos a psicologia jurídica utiliza para lidar com esse tipo de personalidade.

O objetivo deste estudo foi entender quais aspectos podem influenciar a personalidade psicopática assim como os principais motivos do desenvolvimento deste sujeito a partir de uma visão psicanalítica, apresentar as principais características do psicopata e como identificá-los.

O Psicopata não tem sintomas associados a psicoses e neuroses ou deficiência mental. Ele reconhece as consequências de seus comportamentos. Não é detido pelo sintoma de punição, ele a deseja. Geralmente, são impulsionados por alguma motivação e são capazes de expressar compaixão, mas por dentro há uma total indiferença em relação aos outros. Porém ela começa a ser explicada por Freud, que estuda a neurose.

Freud não faz menções sobre estudos com a em si, mas usou o termo Personalidade Perversa pela primeira vez em sua obra “Três ensaios sobre a teoria da Sexualidade” (1905), onde apresenta a relação do desenvolvimento sexual com a infância. Afirma que a perversão é uma característica do ser humano, presente tanto em pessoas saudáveis ou doentes, e para que se obtenha um bom desenvolvimento sexual temos que olhar para o início da infância e prestar atenção nos menores detalhes dessa fase, como o ato de chupar o dedo, entre outros.

Em suma, Freud começa a mostrar a partir dessa obra a crença na sexualidade presente nas crianças e da presença também da perversão já nesse período, e que essa fase e essa característica perversa são muito importantes, pois definirão as atitudes do sujeito frente às questões sexuais, dependendo de como foi vivida.

Então, vendo a importância dessa característica, Freud começou a estudar essa personalidade perversa. Ao longo da sua jornada, acha curioso o comportamento de alguns pacientes em tratamento, que era o fato de eles não sentirem culpa e cometerem atos ilícitos, isso em uma idade avançada da puberdade. Então em 1916 Freud escreve a obra “Alguns Tipos de Caráter encontrados no trabalho Psicanalítico”, no qual ele fala de três tipos de caráter, mas o que cabe neste tópico ele nomeia de criminosos em consequência de sentimento de culpa, que, segundo o autor, são sujeitos que buscam, por parte de atos criminosos, alívio e justificação de tal culpa, portanto a punição seria algo integrante do sintoma, ou seja, o crime. Então, o caráter dos delinquentes que cometem delitos sem sentimento de culpa não desenvolveram inibições morais, mas ele ainda não chama o mesmo de psicopata.

Freud foi o pioneiro em toda pesquisa e exploração de determinantes neuróticos de um ato criminoso. Em 1931 escreve a obra, “Tipos Libidinais”, em que descreve a classificação das características definidas pela organização da libido, ressaltando a menção que ele faz de alguns fatores essenciais que condicionam a criminalidade. Então ele parte de três tipos libidinais que são: o erótico, o obsessivo e o narcisista. “Pessoas que possuem o tipo narcisista e que tenham uma experiência frustrante do mundo externo […], apresentam uma predisposição para a […]” (VELOSO, 2010).

Com esses fragmentos podemos concluir que o sujeito não tem uma tensão entre o ego e o superego, impondo uma personalidade qualificada para servir de papel de líder, se envolver com o desenvolvimento cultural e também de atacar o que por ele for estabelecido. Ou seja, ele fará o papel de herói e criminoso ao mesmo tempo. Porém, Freud trata esse transtorno como neurótico ou psicótico.

Freud, a partir de seus artigos “A Dissolução do Complexo de Édipo” (1924) e “A Organização Genital Infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade” (1923) começou a fazer uma relação entre as origens dessa perversão no sujeito com o Complexo de Édipo e Complexo de Castração.

A relação que Freud faz desses dois conceitos com a perversão é que somente com a dissolução do Complexo de Édipo e de Castração, o sujeito teria a capacidade de desenvolver seu superego “Bem, é minha opinião ser essa ameaça de castração o que ocasiona a destruição da organização genital fálica da criança. Não de imediato, é verdade, e não sem que outras influências sejam também aplicadas […]”. (FREUD, 1924, p. 197).

Se todo esse acontecimento ocorre de maneira correta, saudável, os Complexos de Édipo e Castração atingem seu propósito. “[…] a ausência da satisfação esperada, a negação continuada do bebê desejado, devem, ao final, levar o pequeno amante a voltar as costas ao seu anseio sem esperança. Assim, o complexo de Édipo se encaminharia para a destruição por sua falta de sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade interna.” (FREUD, 1924, p.195).

Quando nasce, o sujeito é movido somente pelo Princípio do Prazer, o ID. A partir dessas experiências nas Relações Primárias da criança, ela começa a desenvolver o Superego, que seria o princípio da Realidade. Dessa forma, começa a internalizar o que é certo e errado, o que pode ou não pode fazer.

Apenas após a dissolução desses complexos, a criança consegue formar seu Superego. Mas se isso não ocorre, a criança não terá a formação dessa estrutura ou, dependendo de como foi vivenciado, terá uma formação fraca, quase insignificante. Dessa maneira, esse sujeito só agiria influenciado pelo Id, seguindo suas vontades, seus desejos.

Por esse motivo Freud enfatiza a importância da primeira infância. As experiências nela vividas deixarão marcas para sempre no sujeito, o seguindo até a vida adulta, influenciando em sua personalidade.

Com tudo, além de ter fatores psíquicos iremos ver a seguir as possíveis causas biológicas da psicopatia, que foi descrito por Phillippe Pinel (1801), Harvey Cleckley (1941) e Hare (2013).

Começando por Hare, ele cita em seu livro que este tema foi escrito primeiramente pelo médico psiquiatra Philippe Pinel (1801) que no século XIX usou o termo “Mania Sem Delírio” descrevendo um padrão de comportamento marcado por falta de remorso e ausência de contenção, fazendo com que ele acreditasse que fosse um padrão distinto do “mal que os homens costumam fazer”. Pinel acreditava que essa condição era moralmente neutra e fez com que outros escritores acreditassem que esses pacientes eram “Moralmente Insanos”, tendo então o início de uma discussão que se estendeu por gerações e durante os anos oscilou entre a visão de que psicopatas são maus ou que são loucos e até diabólicos.

O assunto se estendeu até surgir um escritor que escreveu um livro de muito sucesso, cujo nome é “The Mask of Sanity”, publicado em 1941 pelo autor Hervey Cleckley, um psiquiatra americano que implorava por atenção sobre o que ele reconhecia como um problema social urgente, mas que era ignorado. Ele fez em seu livro menções sobre pacientes e forneceu ao público uma visão em que explica minuciosamente a psicopatia. Cleckley observou que nas penitenciárias os psicopatas usavam suas habilidades sociais para persuadir juízes de que na verdade eles deveriam estar em hospitais psiquiátricos com doentes mentais, um local onde ninguém se interessa por eles, para poderem então por em prática suas ações até conseguir a soltura.

Cleckley postula em seu livro o significado do comportamento do psicopata:

Ele [o psicopata] não se familiariza com os fatos ou danos primários do que chama de valores pessoais e é completamente incapaz de compreender essas questões. É impossível para ele desenvolver um mínimo interesse que seja por uma tragédia ou diversão ou o anseio pela humanidade como apresentado na literatura ou artes sérias. Ele também é indiferente a todas as matérias da vida em si. Beleza, amor, horror e humor não tem nenhum significado real, nenhuma força que o mova. Além disso, não tem capacidade de entender como os outros são tocados por essas coisas. É como se fosse cego a cores, a esse aspecto da existência humana, embora tenha uma inteligência aguçada. Ele não pode entender nada disso porque não há nada, em nenhum ponto de sua consciência, que possa preencher a lacuna necessária a uma comparação. Ele pode repetir as palavras e dizer com loquacidade que esta compreendendo, mas não tem como saber que não compreende. (HARE, 1993, p. 43).

 

The Mask Of sanity influenciou muitos pesquisadores nos EUA e Canadá e nos últimos 25 anos cientistas usaram o livro como base em suas pesquisas, tendo como objetivo descobrir como o psicopata adquire esse poder de persuasão.

Podemos encontrar as características desse transtorno descritas na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID – 10 (1993) na categoria F60.2 como  Transtorno de Personalidade Antissocial. Dentro da CID-10, podemos encontrar características como: indiferença insensível pelos sentimentos alheios; atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normais, regras e obrigações sociais; incapacidade de manter relacionamentos, embora não haja dificuldade em estabelecê-los; muito baixa tolerância a frustração e um baixo limiar para descarga de agressão, incluindo violência; incapacidade de experimentar culpa e de aprender com a experiência, particularmente punição; propensão marcante para culpar os outros ou para oferecer racionalizações plausíveis para o comportamento que levou o paciente a conflito com a sociedade. Pode também haver irritabilidade persistente como um aspecto associado. Transtorno de conduta durante a infância a adolescência, ainda que não invariável presente, pode dar maior suporte ao diagnóstico. (CID-10, 1993, p. 199-200).

Na infância a psicopatia é conhecida como Transtorno de Conduta, pois nessa fase a psique ainda está em formação, ela ainda pode ser modificada, ou seja, ainda há possibilidade de reverter este quadro. Porém, ao entrar na pré adolescência sem nenhum tipo de acompanhamento psicológico, a psique desse sujeito dificilmente será modificada, pois já foi concluída a sua formação.

No livro Sem Consciência (2013), Hare relata que os psicopatas exibem graves problemas de comportamento ainda bem cedo. Eles mentem, cometem fraudes, roubos, incêndios, vadiagem, perturbação na aula, abuso de substâncias, vandalismo e bullying. Em lares ou comunidades onde a criminalidade está exposta, a facilidade de alguém se tornar psicopata é maior, pela influência ambiental que ronda o sujeito. Crueldade com animais é outro sinal de que podemos ter um problema de transtorno de conduta com a criança, sendo comum psicopatas adultos descrevem esses atos de sua infância como um ato normal para o desenvolvimento do ser humano.

Sobre a anatomia desse sujeito, podemos observar que há uma disfunção cerebral, assim como explica o psiquiatra britânico Adrian Raine (1994) que fez uma pesquisa usando o PET (Positron Emission Tomography) com psicopatas e com uma quantidade de 41 assassinos que tinham um baixo nível do funcionamento do córtex pré-frontal, indicando um déficit relacionado à violência, resultando então em perda de autocontrole, imaturidade e incapacidade para modificar o comportamento, facilitando os atos agressivos. Percebeu também que o cérebro dos assassinos apresenta uma atividade anormal na amigdala, o que também colabora para que o indivíduo seja mais agressivo, pois algumas dessas estruturas são partes do sistema límbico, que é uma área do cérebro onde são apresentadas as emoções e comportamentos emocionais.

A psicopatia é julgada no Brasil na pena de semi-imputabilidade, pois se enquadra na classificação de figura fronteiriça, que nada mais é do que o indivíduo que tem algum déficit no lobo frontal. Como vimos anteriormente, essa patologia é causada por uma falta na ligação entre o córtex pré-frontal e a amigdala e por esse motivo os sujeitos se encaixam nessa lei.

Os psicopatas e antissociais se encaixam nessa categoria também, pois são considerados indivíduos que não tem controle sobre estímulos violentos que uma pessoa normal teria, sendo menos responsável por sua conduta, diminuindo o grau de culpabilidade. Porém cabe ressaltar que doenças de vontade e personalidade antissocial são transtornos de personalidade e não são totalmente isentos de culpa, pois não afetam as atividades cerebrais, mas não se caracterizam anormais.

[…] doenças da vontade e personalidades antissociais são anomalias de personalidade que não excluem a culpabilidade, pois não afetam a inteligência, a razão, nem a alteram a vontade. […] Por isso, é preciso muita cautela, tanto do perito, quanto do juiz, para averiguar as situações consideradas limítrofes, que não chegam a constituir normalidade, pois trata-se de personalidade antissocial, mas que não caracteriza a anormalidade a que faz referência o art. 26.” (CASTRO, 2012).

Ou seja, os psicopatas se enquadram na culpabilidade diminuída, mas com a possibilidade de tratamento especial curativo e se aplica no indivíduo uma medida de segurança substitutiva da pena.

A importância desses fatos é de poder identificar um psicopata, entender o que o levou a agir dessa maneira e tratar o sofrimento psíquico desse sujeito. Porém, não há terapia que mude esse tipo de personalidade depois de certa idade, pois está muito estruturada e não tem como reverter, segundo as pesquisas publicadas até hoje.

 

REFERÊNCIA

CASTRO, Isabel Medeiros. Psicopatia e suas Consequências Jurídico-Penais. Disponível em: <http://www3.pucrs.br/pucrs/files/uni/poa/direito/graduacao/tcc/tcc2/trabalhos2012_1/isabel_castro.pdf>. Acesso em 18 de setembro de 2016.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id e Outros Trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

HARE, Robert D. Sem consciência: o mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós; tradução: Denise Regina de Sales; revisão técnica: José G. V. Taborda. Porto Alegre: Artmed, 2013.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação de Transtornos mentais e de Comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artmed, 1993.

VELOSO, Ednara Pereira de Andrade. Interfaces entre Psicopatia e Criminalidade: uma leitura da neurociência e da psicanálise. Disponível em: <http://repositorio.favip.edu.br:8080/bitstream/123456789/969/1/TCC+-+Nara.PDF> Acesso em 24 de fevereiro de 2016.

Para citar este artigo: 

PERFEITO, Amanda Caroline da Silva; CAMPANARI, Rayssa Sorrentino dos Santos; TOMÉ, Marta Fresneda. PERSONALIDADE PERVERSA: UM ESTUDO SOBRE OS CONSTITUTIVOS DA PERSONALIDADE PSICOPÁTICA. Publicado em: 8 de junho de 2017. Disponível em: <http://blogdapsicologia.com.br/unimar/2017/06/personalidade-perversa-um-estudo-sobre-os-constitutivos-da-personalidade-psicopatica/>. Acesso em: 19 de novembro de 2017.