Autoras: GRASSI, Mariana Giometti; GABALDI, Paula do Valle.
Orientadora: RIBEIRO, Karla Cristina Rocha.
PSICOLOGIA/UNIMAR.
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) conceitua como a pessoa acima de 60 anos de idade. Todavia este conceito cronológico recebe ressalva, já que em um país desenvolvido essa idade pode ter melhor condição e qualidade de vida, diferente de um país em desenvolvimento. Por isso, para a OMS, o critério cronológico não é o mais importante e relevante para conceituar uma pessoa de idosa (WHO, 2002).

No Brasil, a lei 10.741de 1º de outubro de 2003, conhecido com o Estatuto do Idoso, conceitua em seu artigo 1º os direitos a pessoas com idade igual ou superior a 60 anos de idade (BRASIL, 2013). Assim, o estatuto, no quesito cronologia, segue o preconizado pela OMS.

O conceito de longevidade é um movimento recente na sociedade atual visto que é a primeira vez que se alcança idades avançadas, refletindo para o idoso um isolamento social ao passo que perde amigos, familiares e convivência com o mundo externo, pois, ao se encontrar desamparado, acaba por se isolar ao passo que se angustia com sentimentos de incapacidade, vergonha, medo da morte, dentre outros. Nesse sentido, Capitanini (2000 apud ALTMAN, 2011, p. 193)¹ :

[…] na sociedade atual, o idoso tem um tipo de vida que conduz a sentimentos de solidão, apatia e insatisfação. Principalmente nas cidades grandes, onde ocorre de forma mais evidente o isolamento emocional e social, em decorrência do pouco contato entre os vizinhos e com a comunidade em geral, ao lado das relações interpessoais limitadas ou até mesmo ausentes.

 

O conceito de independência funcional envolve a capacidade de exercer as funções da atividade diária de forma independente. Relaciona-se com sua mobilidade sem a ajuda de um terceiro para a realização de suas vontades e necessidades diárias. Para tanto, é fundamental que haja condições motoras e cognitivas satisfatórias. Caso isso não ocorra, o idoso é dependente funcional, pois devido a limitações físicas e intelectuais, ele requer a ajuda de outra pessoa. As limitações à atividade diária do idoso podem incluir, segundo exemplificação de Guimarães e Cunha (2004, p. 19):

doenças incapacitantes, estados afetivos e vivências negativas, escassez ou inadequação de ajuda física ou psicológica, estado de desamparo, desmotivação, falta de adaptação ambiental para a melhor segurança e, ainda, práticas terapêuticas inadequadas, levando à iatrogenia, inatividade e deterioração geral.

A perda da funcionalidade pode ser causada por diversos fatores. Um deles podem ser os estímulos recebidos do meio social, na perda da autonomia familiar e econômica. Outro fator se da pelas alterações orgânicas, com o surgimento de limitações físicas e aparecimento de doenças. E por fim o fator psíquico, pois, é quando o idoso, com dificuldade de elaborar o envelhecimento desenvolve mecanismos de defesa, acarretando em disfunções emocionais.

Segundo a psicanalista Danielle Quinodoz (2011), é preciso que nesse período da vida o idoso resgate sua história interna a fim de elaborar o processo de envelhecimento de forma a apropriar-se da vida e senti-la, agora com outros olhos, por meio das lembranças significativas, denominadas pela autora como “momentos de eternidade”. Dessa forma, ocorre a junção do passado e do presente, pois para ela, quando o mundo externo se empobrece, e ai entende-se as relações das perdas, é necessário que o mundo interno se enriqueça ou se aprofunde. Portanto, segundo Quinodoz (2011, p. 2) “a necessidade de encontrar a coerência em sua vida intensifica- se no momento de deixá-la, pois é uma forma de apropriar-se da própria existência”.

Gordon (2009, p. 203) ao refletir sobre o livro de Quinodoz, fala que:

o sentimento de solidão é muito presente, a pessoa sente-se sozinha e pode de fato estar só em meio a perdas reais, mas, ao manter uma boa relação com os objetos internos, a perda dos objetos externos pode ser mitigada.

Dessa forma entende-se que a manutenção de uma vida funcional ultrapassa as fronteiras biossociais, ao permitir recursos para desenvolver e apropriar-se dos processos psíquicos levando a viver uma velhice mais saudável e feliz.

De acordo com a Teoria Sistêmica o sujeito é inserido no contexto familiar, social, comunitário, coletivo, fazendo dele um ser simétrico às questões enfrentadas, ou seja, ele não tem um problema isolado de cunho individual, o sujeito encontra-se paralelo a todas as questões que o interajam, sendo assim relacionado com seu parceiro(a), família, amigos, colegas de trabalho, comunidade, cotidiano. Tem por objetivo interceder de modo intenso e tempo circunscrito, com a finalidade de alterar padrões intra ou extra familiar.

O terapeuta nessa abordagem não se mantém distante dos problemas expostos pelo outro, é necessário que viva uma empatia com a problemática que se apresenta para poder entrar em seu mundo e entender os conflitos. É valorizada a história de vida trazida para o setting e seu conhecimento sobre ela, para que juntos possam solucionar da melhor forma as dificuldades apresentadas.

O envelhecimento orgânico sempre existiu e apesar de termos elementos que contem a história a partir de um determinado momento, não temos ainda referências exatas de quando foi socialmente contextualizada. Embora a longevidade faça parte do processo evolutivo do ser humano, se não morrerem jovens, vem carregada de temores, mitos e crenças. Todos envelhecem de formas variadas e em muitos casos o indivíduo enfrenta essa progressão de acordo com que a sociedade o enxerga (LEMOS et al., [2006]).

Com o decorrer da história, os anciãos assumiram inúmeros papéis de acordo com o lugar, cultura e o tempo que estavam inseridos. Nem sempre foram tidos como renegados ou frágeis; dentre os povos Incas e Astecas ocupavam o posto de sabedoria e respeito, assim como na China e no Japão que são tratados com admiração e atenção pela vasta experiência de vida. Na sociedade romana tinham classe privilegiada, eram encarregados do poder de “pater famílias”, porém quanto mais habilidades lhe eram atribuídas mais despertavam a fúria dos mais jovens e foi com o declínio do Império Romano que os idosos foram perdendo o prestígio, pelas rusgas dos mais novos. O Cristianismo concedeu a eles o estigma da feiúra, incapacidade, senilidade, decadência. Intelectuais entre o século XIV e XVI passando por Leonardo da Vinci, Michelângelo, Shakespeare, ridicularizavam anciãos devido ao extremo culto da beleza e juventude, fato esse também citado por Helen Bee em “O Ciclo Vital”, Shakespeare possuía uma visão sombria em relação a esse estágio da vida. A partir do século XX foi possível desvincular a visão de doença ao envelhecimento e se desenvolveram a gerontologia e a geriatria (LEMOS et al., [2006]).

Resquícios das crenças passadas acerca do envelhecimento ainda são grandes obstáculos para uma aceitação plena da velhice na sociedade. Esses aspectos que precisam ser ressignificados para que o envelhecimento não seja visto como desvalia e sim como uma fase natural da vida.

Por mais que seja uma idade em que o acesso a saúde é indispensável e que os gastos com medicações, médicos e hospitais, mesmo que públicos, sejam inegáveis, não é apenas disso que se vive o idoso, atualmente com aposentaria e programas voltados exclusivamente à essa fatia, o mercado tem olhado para eles com mais atenção, uma vez que a média de idade aumentou fazendo deles também consumidores, que viajam, vão ao cinema, estudam e praticam esportes.

Helen Bee, psicóloga estadunidense, em seu livro “O Ciclo Vital” (1997), cita que um dos fatores além da expectativa de vida, que contribui para que hoje tenhamos um número grande de pessoas idosas é pelo alto índice de natalidade após a Segunda Grande Guerra o que nos faz chegar aos dias atuais cujo essas pessoas têm por volta de 75 anos. Quando ela fala em transformações físicas de um indivíduo diz que a perda dessas funções são desencadeadas a partir dos 40 anos e que continuam ao longo da vida. Segundo a autora, no cérebro ocorrem quatro alterações principais: redução do peso, uma perda de massa cinzenta, uma desaceleração nas sinapses e perda da densidade dos dendritos, sendo esta a principal modificação também chamada de perda da plasticidade sináptica. Queremos com esse trabalho mostrar que o envelhecimento é o futuro natural de todas as pessoas e que o idoso dinâmico talvez venha adquirir essas perdas neuronais mais tardiamente se estiverem ativos (BEE, 1997).

Há inúmeras pesquisas que comprovam que o bom envelhecimento está intrinsecamente relacionada a qualidade de vida. Na pesquisa de Njegovan et al. (2001 apud SANTOS; ANDRADE; BUENO, 2009), com 5874 idosos, onde relacionaram que as perdas cognitivas estão ligadas as perdas das realizações de tarefas funcionais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALTMAN, M. O envelhecimento à luz da psicanálise. J. Psicanal., São Paulo, v. 44, n. 80, jun. 2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352011000100016>. Acesso em: 18 nov. 2015.

BEE, H. O ciclo vital. Porto Alegre: Artmed, 1997.

GORDON, A. R. Quando o envelhecer é um desdobramento de si mesmo. Ide, São Paulo, v. 32, n. 49, dez. 2009. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062009000200022>. Acesso em: 18 nov. 2015.

IBGE. Projeção da população do Brasil por sexo e idade para o período 2000/2060. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/projecao_da_populacao/2013/default_tab.shtm>. Acesso em: 18 nov. 2015.

LEMOS, D. et al. Velhice. Desenvolvido pelo Departamento de Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. [2006]. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/e-psico/subjetivacao/tempo/velhice- texto.html>. Acesso em: 22 mar. 2016.

MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa em saúde. 13. ed. São Paulo: Hucitec; 2013.

Para citar este artigo:

GRASSI, Mariana Giometti; GABALDI, Paula do Valle; RIBEIRO, Karla Cristina Rocha. É TEMPO DE VIVER: Um Estudo Sobre a Relação da Funcionalidade do Idoso com a Saúde Psíquica. Publicado em: 4 de julho de 2017. Disponível em: <http://blogdapsicologia.com.br/unimar/2017/07/e-tempo-de-viver-um-estudo-sobre-a-relacao-da-funcionalidade-do-idoso-com-a-saude-psiquica/>. Acesso em: 22 de setembro de 2017.

É TEMPO DE VIVER: UM ESTUDO SOBRE A RELAÇÃO DA FUNCIONALIDADE DO IDOSO COM A SAÚDE PSIQUÍCA
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