O DESAFIO DA SAÚDE MENTAL INFANTIL NA CONTEMPORÂNEIDADE: UM ESTUDO SOBRE A INFLUÊNCIA FAMILIAR E AMBIENTAL

 CORREA, Adelisa Elena Banhara; LECATE, Fernanda Siqueira;
PEREIRA, Miriã de Oliveira; TOMÉ, Marta Fresneda.
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O presente trabalho tem como objetivo apresentar uma investigação sobre como as relações afetivas no ambiente familiar influenciam o desenvolvimento psíquico e . Sabemos que a família é o núcleo inicial em que se constituem as primeiras relações sociais entre indivíduos. É na família que temos o primeiro contato e criamos laços ativos, afetivos e de proximidade, onde se criam as condições necessárias ao desenvolvimento de todo e qualquer indivíduo.

Atualmente, a dimensão do conflito familiar pode ser considerada um fator importante no processo do desenvolvimento, pois como conseqüência pode acarretar em ocorrência de distúrbios afetivos e comportamentais, podendo comprometer o sucesso das relações interpessoais e sociais dos mesmos, atrapalhando seu convívio social, familiar.

Tornou-se instigante pesquisar sobre este tema, visto que a está diretamente relacionada ao contexto familiar e às influências ambientais do cotidiano. Uma vez que o indivíduo é produto de suas múltiplas e complexas interações, todo o seu desenvolvimento posterior é influenciado e afetado por estas.

Uma criança que vive em um ambiente familiar conflitivo pode, por exemplo, desenvolver uma conduta de afastamento ou isolamento. Em outras etapas, este indivíduo pode vir a apresentar importantes defasagens em seus padrões de relacionamento e desenvolvimento.

Os problemas derivados deste tipo de situação são inúmeros e ocorrem com frequência regular; ou seja, são recorrentes. Portanto, tornam-se aplicáveis e justificáveis os esforços desta pesquisa.

A partir deste pressuposto, o presente trabalho se faz importante, para compreender os possíveis fatores que podem desencadear transtornos e dificuldades no desenvolvimento psicológico de cada sujeito.

Visto que atualmente diversas crianças apresentam problemas referentes à saúde mental, torna-se necessário compreender e estudar o que pode de fato influenciar para que o desenvolvimento infantil seja saudável.

O método utilizado no estudo foi uma revisão bibliográfica baseando-se nos conhecimentos em acerca das relações familiares, quais as ligações entre os conflitos existentes no contexto familiar e quais as implicações disso no desenvolvimento psicológico infantil.

Buscou-se realizar um levantamento das variáveis que podem influenciar no desenvolvimento e nos indicadores de saúde mental relativos a infância e, assim, elucidar as propostas de interlocução entre família e Estado.

CONSTITUIÇÃO FAMILIAR

A família é o primeiro grupo social ao qual fazemos parte. Esta, como sendo a unidade central da vida do sujeito, deve acolher este, permitindo o desenvolvimento de suas habilidades, experiências, vivências e novas relações humanas. Esta instituição é o meio em que a pessoa recebe todo o apoio afetivo, psicológico, valores humanos e éticos, como também, diversos fatores necessários para o seu desenvolvimento integral, tanto físico quanto mental (GONZALES, 1999; OLIVEIRA e JORGE, 1998).

A base do convívio social das pessoas é a instituição familiar, é nela que o ser humano habita para enfrentar seu mundo exterior, e começa a fazer parte de uma comunidade, onde ele terá relações e interações sociais e assim constituir novas famílias. Portanto, é necessário lembrar que existem varias formas de arranjo familiar, aonde vão alem daquela figura que se tem da família nuclear onde é constituída (pai, mãe, filho, irmão) e muito diferente da figura que se mantém como um ambiente certo para o bom desenvolvimento infantil. Aquela imagem de uma família onde o pai trabalha para prover os recursos essenciais para que sobrevivência física e a mãe fica com a responsabilidade dos cuidados da casa,dos filhos e da educação dos mesmos.

Historicamente, a família tem sido considerada o ambiente ideal para o desenvolvimento e a educação de crianças pequenas. Essa é a posição de alguns sistemas educacionais, que sustentam que a responsabilidade da educação dos filhos, particularmente quando pequenos, é da família, e assumem um papel de meros substitutos dela, repetindo as metas embutidas nas práticas familiares (OLIVEIRA, 2005, p.175).

Em nossas pesquisas vimos que uma grande parte das crianças estácarente de “família”. Vivendo em lares completamente diferentes deste idealizado. Convivem com separações de pais, uniões informais, muitas vezes são criados pelos avós, tios, etc. Outras até vivem com seus pais, mas são carentes de afeto, de atenção, e até mesmo sendo essa falta em determinados casos são preenchida com presentes que por sua vez não substituem a necessidade da relação entre pais e filhos.

Além disso, a violência pode estar presente em várias famílias, como agressões, espancamentos, ameaças, abusos sexuais, abandono e até mesmo a falta de tempo que os pais não disponibilizam para com seus filhos. Todos esses fatores que podemos falar a respeito ao ambiente familiar, alem de ferie a figura da família, podem interferir na saúde mental infantil.

Relação Mãe – Criança

De acordo com Bowlby apud Motta et al (2002) o sistema de apego, do ponto de vista evolucionista, aumenta as chances do bebê sobreviver, permitindo ao cérebro imaturo usar o funcionamento maduro dos pais para atender suas necessidades vitais. O vínculo materno adequado é crucial para o desenvolvimento do sistema de apego seguro, ao mesmo tempo em que, para ocorrer desta maneira, esse vínculo deverá ser alimentado pelo comportamento responsivo do bebê. O apego seguro do bebê com sua mãe ou cuidador(a) promove um bem-estar no bebê, tanto dele com ele mesmo quanto em relação à confiança básica nos adultos,enquanto o apego inseguro está relacionado a um aumento de ansiedade.

Só na presença da mãe suficientemente boa pode a criança iniciar um processo de desenvolvimento pessoa e real. Se a maternagem não for boa o suficiente, a criança torna-se um acumulo de reações à violação; o self verdadeiro da criança não consegue formar-se, ou permanece oculto por trás de um falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com as bofetadas do mundo. (WINNICOTT, 2005, p.24).

Para Schmitz (2005) apud Lebovici (1963), a criança que sofreu privação materna precoce pode ser acometida por transtornos do ego como profundo masoquismo, dependência excessiva e caráter delitivo e estado depressivos do adulto. Além disso, pode apresentar forte tendência á relações sexuais promíscuas e furtos.

Assim sendo, percebe-se como é importante um bom relacionamento da criança com o meio social e familiar, pricipalmente a importância da relação mãe /criança, concedendo para seus filhos estímulos capazes de realiza um desenvolvimento de forma saudável. É essencial destacar que como a falta de estímulos pode ser prejudicial para o desenvolvimento, o excesso do mesmo, também pode ocasionar em “falhas” neste processo capazes de comprometer, em algum determinado momento, o desenvolvimento desta criança,podendo estar localizado nos aspectos sociais,funcionais, metais e motores forma mais saudável possível.

O pai e a função paterna

Bowlby (1989) fala da importância dos pais fornecerem uma base segura a partir da qual uma criança ou um adolescente pode explorar o mundo exterior e a ele retornar certos, de que serão bem-vindos, nutridos física e emocionalmente, confortados se houver um sofrimento e encorajados se estiverem ameaçados. A consequência dessa relação de apego é a construção, por volta da metade do terceiro ano de idade, de um sentimento de confiança e segurança da criança em relação a si mesma e, principalmente, em relação àqueles que a rodeiam, sejam estes suas figuras parentais ou outros integrantes de seu círculo de relações sociais.

Para Aberatury (1991), o lugar do pai, entre seis e doze meses, não é tão destacado na literatura, como acontece com a figura materna, no entanto, o contato corporal entre o bebê e o pai, no cotidiano, é referência na organização psíquica da criança, devido à sua função estruturante para o desenvolvimento do ego. No segundo ano de vida, já existe a imagem de pai e de mãe, e a figura paterna fica mais acentuada e tem a função de apoiar o desenvolvimento social da criança, auxiliando-a nas dificuldades peculiares a este período e no desprendimento necessário da criança aos costumes da situação familiar, mantidos pela mãe.

De acordo com Corneau (1991), fundamentado pelas ideias de Lacan, reafirma que o pai é o primeiro outro que a criança encontra fora do ventre de sua mãe, sendo ele indistinto para o recém-nascido, mas ao bloquear o desejo incestuoso, sua figura vai se diferenciando, permitindo o nascimento da interioridade do filho e desfaz, assim, a fusão entre o eu e o não eu, o pai encarna inicialmente a não mãe e dá forma a tudo que não seja ela.

A presença do pai é que poderá facilitar à criança a passagem do mundo da família para o da sociedade. Será permitido o acesso à agressividade, à afirmação de si, à capacidade de se defender e de explorar o ambiente. Este mesmo autor acredita que as crianças que sentem o pai próximo e presente sentem-se mais seguras em seus estudos, na escolha de uma profissão ou na tomada de iniciativas pessoais. (CORNEAU, 1991).

A figura paterna nos mostra claramente a possibilidade do equilíbrio pensado como regulador da capacidade da criança investir no mundo real. A figura paterna ganha contornos no processo de desenvolvimento, de acordo com a etapa da infância. Sua representação na fase inicial da vida é crucial, na maneira de resolver seus conflitos em momentos importantes do desenvolvimento. A criança precisa do par conjugal adulto para traçar dentro de si proprio uma imagem positiva das trocas afetivas (tendências, emoções, sentimentos, paixões etc.) e da convivência.

Lar desestruturado

Diante do que foi pesquisado, pode-se observar que a temática da violência intrafamiliar está cada vez mais presente no cenário atual de um lar desestruturado,crianças e adolescentes vêm sendo submetidos, a condições adversas, o que refletirá em prejuízos no seu desenvolvimento. Entende-se como fatores de risco ao desenvolvimento infantil todas as modalidades de violência doméstica, violência física, a negligência e a violência psicológica, sendo que a última inclui a exposição à violência conjugal e a violência sexual.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define como maus tratos, todas as formas de abuso ou violência (física, emocional ou psicológica, sexual, negligência, exploração comercial ou outra), no contexto de relação de responsabilidade, confiança ou poder do adulto em relação à criança ou ao adolescente. Maus tratos podem causar dano real ou potencial ao desenvolvimento, capacidade de sobrevivência, saúde ou dignidade aos sujeitos que sofrem violência. Esse é um fenômeno que se reproduz a partir de um ciclo, podendo a criança que sofre violência doméstica, ou maus tratos, repeti-lo em diferentes situações.

Para Zambom et. al (2012), a violência doméstica pode causar diversos prejuízos na vida de crianças, pois costumam reproduzir aquilo que vivem através de suas brincadeiras, atitudes e aprendizagens. O primeiro grupo social que a criança tem contato é a família e entendemos que é atribuição desta propiciar um ambiente seguro e tranquilo. Os autores referem ainda que, experiências de violência ocorridas durante a infância poderão interferir de modo significativo no desenvolvimento futuro, apresentando dificuldades de aprendizagem, déficits emocionais e até transtornos mentais graves.

De acordo com Kaplan e Sadock (1990), os maus-tratos na infância representam uma doença médico-social que está assumindo proporções epidêmicas e se tornando cada vez mais arraigada na população. Os maus-tratos na infância variam desde a privação de alimentos, roupas, abrigo e amor parental, até incidentes nos quais as crianças são fisicamente maltratadas por um adulto, resultando em traumas óbvios à criança e freqüentemente levando ao óbito. Ainda, segundo esses autores, os maus-tratos na infância constituem um aspecto da violência social que está insidiosamente se infiltrando na sociedade e reflete-se em todas as estatísticas sobre crimes.

Furniss (1993) afirma que a consciência cada vez maior do abuso sexual da criança por parte dos profissionais tem sua origem em duas fontes. A primeira é o crescente movimento dos direitos da criança, enquanto que a segunda fonte é o crescente conhecimento e preocupação com a saúde física e mental da criança. Mas, infelizmente, observa-se um despreparo generalizado envolvendo desde os profissionais da área de saúde, educadores e juristas até as instituições escolares, hospitalares e jurídicas, em manejar e tratar adequadamente os casos surgidos (FLORES;CAMINHA, 1994, p. 158).

Sentimentos de culpa são comuns entre crianças sexualmente abusadas, sendo um dos mais graves efeitos emocionais resultantes da interação abusiva, especialmente se essa foi incestuosa e durou por muito tempo. Ao sentimento de culpa, soma-se o dano secundário de estigmatização, devido à acusação por parte dos pais e da família (FURNISS, 1993, p. 29).

Crianças que sofrem com a violência doméstica estão em situação de perigo trazendo consigo problemas psicossociais, mesmo quando não sãoalvo da agressão física. Qualquer tipo de violência na família pode prejudicar o desenvolvimento da criança. Além dos problemas psicossociais e as marcas físicas, a violência doméstica costuma causar vários danos emocionais. È na infância que sãoformadas as características afetivas e de personalidade que a criança levara para a vida adulta.

De acordo com Silva et al (1986, p.37), o alcoolismo está inevitavelmente enraizado nas rede de interações familiares. Essas interações incluem tanto comunicações abertas e impactos diretos quanto processos dinâmicos e muito sutis. O alcoolismo influencia o comportamento de seus familiares de tal forma que se estabelece uma espécie de ressonância.

Para Soares e Neves (2001), nas diferentes famílias, principalmente as que possuem renda insuficiente para prover suas necessidades básicas de sobrevivência, é atravessada por toda uma problemática macroestrutural que se reflete no universo micro, ou melhor no cotidiano de suas vidas, em suas relações estabelecidas entre os membros de cada configuração de família. Para um melhor entendimento mais apurado sobre tal questão, a categoria mediação contribui para melhor aproximação sem perder a dimensão das particularidades existentes em suas especificidades. Por exemplo, o que no primeiro momento aparece como algo pontual e singular (violência de um pai alcoolizado, desempregado contra seus filhos ou a violência doméstica contra a mulher, entre inúmeras outras situações existentes) e que aparecem como demandas nos diferentes espaços de trabalho do Assistente Social, merecem ser analisados dentro de uma perspectiva de totalidade, sem negar a história de vida das famílias ou usuários atendidos mas também considerando aspectos presentes na universalidade: desigualdade social, ausência de políticas sociais com cunho emancipatório, desemprego estrutural, as relações de poder existente, a cultura da violência entre outros determinantes. (SOARES e NEVES, 2001, p. 139-140).

Conforme Pillon e Villar Luis (2004) o ambiente familiar tem importância na determinação do consumo de bebidas alcoólicas e sugere que o alcoolismo está associado com negligência, distanciamento emocional, rejeição dos pais e tensão familiar.

Conforme visto com autores acima, a atenção e amor dos pais são primordiais para com as crianças, as inúmeras discussões entre os pais, a agressão familiar, a falta de compreensão, as regras e normas impostas,entre outros problemas, podem vir a desestruturar o lar e interferir no desenvolvimento psíquico e com esses impactos não promovendo a saúde mental. As violências psicológica, físicase até sexuais,o convívio em um lar com usuários de drogas e bebidas podem vir também a contribuir aos problemas na saude mental infantil.

REFERÊNCIAS

ABERASTURY A. A paternidade. In: ABERASTURY A, SALAS EJ, eds. Paternidade: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre:Artes Médicas:1991. p.41-87.

BOWLBY J. Uma base segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

CORNEAU G. Pai ausente, filho carente. Trad. Jahn L. São Paulo: Brasiliense, 1991.

FLORES, R. Z.; CAMINHA, R. M. Violência sexual contra crianças e adolescentes: Algumas sugestões para facilitar o diagnóstico correto. Revista de Psiquiatria do RS, vol. 16, p. 158-167, 1994.

FURNISS, T. Abuso sexual da criança: Uma abordagem multidisciplinar – Manejo, terapia e intervenção legal integrados. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

GONZALES, R.M.B. A auto-percepção – um trajeto vivenciado por enfermeiras. In: GONZALES, R.M.B., BECK, C.L.C., DENARDIN, M.L. Cenários de cuidado: Aplicação de teorias de enfermagem. Santa Maria: Ed. Pallotti, 1999.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Saúde mental: nova concepção, nova esperança. Relatório sobre a saúde no mundo 2001. Genebra; 2001.

PILLON, Sandra Cristina; LUIS, Margarita Antonia Villar. Modelos explicativos para o uso de álcool e drogas e a prática de enfermagem. Rev. LatinoAm. Enfermagem, vol. 12, n. 4, jul./ago. 2004.

SILVA, Maria de Lourdes da., et al. Alcoolismo: um problemacom o qual muitos convivem, porém poucos conhecem. São Paulo: Edicon, 1986, p. 36-41.

SOARES, A. C. N. Mulheres chefes de família: narrativa e percurso ideológico. Tese (Doutorado em Ciências, Área: Psicologia). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2001.

WINNICOTT, Donald Wood.A criança e o seu mundo. 6. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1982.

_________. A família e o desenvolvimento do indivíduo. Belo Horizonte: Interlivros, 1980.

ZAMBON, M.P.; JACINTHO, A.C. de A.; MEDEIROS, M.M. de; GUGLIELMINETTI, R.; MARMO, D.B. (2012) Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes: Um Desafio. Revista da Associação Médica Brasileira. Vol.58, nº 04. São Paulo, ago, 2012.

Para citar este artigo:

CORREA, Adelisa Elena Banhara; LECATE, Fernanda Siqueira; PEREIRA, Miriã de Oliveira; TOMÉ, Marta Fresneda. O Desafio da Saúde Mental Infantil na Contemporâneidade: Um Estudo sobre a Influência Familiar e Ambiental. Publicado em: 10 de julho de 2017. Disponível em: <http://blogdapsicologia.com.br/unimar/2017/07/o-desafio-da-saude-mental-infantil-na-contemporaneidade-um-estudo-sobre-a-influencia-familiar-e-ambiental/>. Acesso em: 19 de novembro de 2017.