LIMA, André do Amaral; TOMÉ, Marta Fresneda.
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RESUMO: A música é uma das mais antigas artes da humanidade, e é utilizada para diversos fins, sejam estes o ensino, cultural ou expressar o mundo interno do indivíduo.
Este estudo teve como objetivo compreender se a música contribui para o desenvolvimento psicossocial de crianças e adolescentes, utilizando-se de uma revisão bibliográfica, baseando-se em diversos autores da psicanálise, também utilizando as áreas de conhecimento da musicoterapia e psicologia social, denotando-se que é relevante analisar a influência da psicologia social na formação do indivíduo.

Palavras-chave: Música; Psicanálise; Desenvolvimento; Infância; Adolescência.

1 A MÚSICA E SUA ATUAÇÃO PSÍQUICA

O psicólogo deve atender numa perspectiva biopsicossocial em sua ação terapêutica, buscando e analisando cada artifício trazido até ele, seja de forma verbal ou não verbal. A relevância de cada fato é marcante para o melhor encaminhamento, possibilitando assim um prognóstico mais acertado.

A comunicação verbal, de forma simples, é a passagem de informações por meio da linguagem falada ou escrita. Comumente utilizada nas sessões psicológicas para trocar assuntos, porém o indivíduo é dotado não somente de consciente, que pode ser acessado de forma simples e direta, mas também de inconsciente que necessita de artifícios para ingressa-lo. Freud, em seus estudos, já compreendia a existência do mesmo pois conseguia acessá-lo por sonhos, atos falhos e outras ferramentas (ROZA, 1994).

1.1 A Música

A palavra música é vinda do latim – música, e grega – mousikè e continha vários significados. Um deles diz respeito às deusas da proteção, poesia e cultura geral – Musas, e também ao contrário – a-mousos, que diz respeito a aquelas pessoas ignorantes e incultas (TOMÁS, 2005). A música na Grécia era muito importante por unir-se a diversos saberes, para eles estudar áreas individualmente não era necessária, pois o importante era a formação integral do sujeito.

A harmonia hoje tem o significado de concordância, mas na época grega entendia-se por “junções e ajustes” e utilizavam-na para contextualizar a “união de coisas contrárias”. Nesse ponto o poder da música sobre o espírito tinha grande aprovação, tendo crenças de que “cada harmonia provoca no espírito um determinado movimento” (TOMÁS, 2005), sendo assim o sonoro e teórico se encontravam.

O termo “surgimento da música” é proposto de forma equivocada pois ela sempre esteve presente, de acordo com diversos estudiosos da área, o aparecimento dela ocorreu aproximadamente a cinquenta milhões de anos, em tribos africanas, ocorrendo sua dissipação pelo Egito (quatro milhões antes de Cristo), Oriente Médio e Ásia (três mil antes de Cristo) e por fim Europa, na qual se misturou com obras artísticas que surgiam por essa época. Permanentemente existiu como produção cultural. Na antiguidade era essencial tê-la em mãos, e era produzida a partir de utensílios do dia a dia, e para comprovação existem diversas gravuras e esculturas que mostram instrumentos, músicos e dançarinos em ação, mas a forma na qual era produzida ainda é uma incerteza (BENNETT, 1986).

A música é uma linguagem não verbal (intrínseca – expressiva, e extrínseca -expressiva), utilizada de diversas formas para expressar o mundo interno de cada autor, por meio dos sons e tons, mas também é usada como comunicação verbal colocando letras e virando canções. Ela é a arte de combinar sons e o silêncio, e está integrada em toda nossa volta, possuindo a capacidade de traduzir as atitudes, valores e sentimento de indivíduos, podendo ser usada localmente ou global.

1.2 Inclusão da música no campo terapêutico

Aristóteles em seus estudos, coloca o aspecto hedonista no campo musical, ou seja, há os prazeres que ela proporciona pela escuta. Assim a discussão de quais seriam os propósitos dos estudos musicais na educação afetariam a compreensão do aluno foram acentuados (TOMÁS, 2005).

“Música cantada e música instrumental desenvolvem-se paralelamente mantendo elos inseparáveis entre a palavra e música” (PIAZZETA, 2010, p. 45). Com o decorrer dos séculos muitos livros foram escritos sobre o tema, e seu ensino deixado de lado na formação do caráter, a utilização era apenas artística e feita de modo a passar conclusões e ideias para outros, porém ao final do século XVIII pesquisas realizadas em hospitais para o cuidado apareceram.

Somente no final do século XVIII é que alguns estudos sérios sobre os efeitos precisos da música sobre a mente humana foram feitos. Entre os primeiros investigadores estava o Dr. Brocklesby, que conduziu uma série de experimentos com uma criança de dois anos nascida de pais musicais, – ela estava num dia notável para júbilo e bom humor sobre escutar música energicamente arejada;(…). Mas como começaram o cromático e as tensões mais graves, aumentaram a melancolia e a tristeza na criança, retirados estes temperamentos então as tensões amenas foram tocadas. Assim como eu fui informado eles poderiam ter aumentado e dissipado o desgosto e alegria em termos desta mente infantil (PODOLSKY, 1954, p. 7-8).

Os médicos deram início ao uso da música como terapia a saúde mental e defendiam que ela era um dos melhores remédios, mesmo não havendo comprovações científicas, e seguiu sendo admirada até meados do século XX.

O Dr. Ira M. Altsguler foi o pioneiro para a construção da musicoterapia, e tomava como base os estudos dos antigos gregos, assim formulava uma ação terapêutica da música juntamente com a formulação do ISO – Identidade Sonora, os sons que rodeiam um indivíduo desde os tempos intrauterinos. Muitos hospitais da época contratavam orquestras para atuar juntamente com o corpo médico. Aqueles que trabalhavam com a música como terapia consideravam os tempos musicais e mentais do paciente, e normalmente era utilizada em casos no qual a comunicação verbal estava corrompida. Nesse ponto a música conseguia fazer o contato interpessoal, possibilitando a entrada do tratamento. A música possui propriedades que nenhum outro tem, como espiritual, estético e artístico (ALTSHLER, 1954), por isso a aplicação deveria ocorrer com um mussita treinado, com isso o campo musical ganhava uma nova área: o terapeuta musical, que era treinado e educado pelos ensinamentos psiquiátricos. No século XX o nome “terapêutica musical” foi trocado para “musicoterapia”, e as primeiras teorias em cima disso foram escritas por Gaston (1968) que sugeriu que o conhecimento da música como forma de conhecimento humano pudesse ser aproveitável para a construção dessa teoria.

Paul Nordoff e Clive Robbins encontraram na música uma forma de trabalhar com crianças com deficiência, e fundaram a Musicoterapia Criativa – que a coloca no papel de agente de cura. Eles seguiram o pensamento de Zuckerkandl (1973) no qual música é a arte dos sons, uma porta que possibilita “sair” da nossa realidade e vislumbrar o toso de uma perspectiva totalmente diferente. E musicalidade é uma capacidade humana inata, dando a entender que todos os humanos são musicais, que desenvolvendo essa capacidade os faz desenvolver suas humanidades. Logo a educação especial ganhou novos meios para tratar as crianças, porém a musicoterapia criativa atua aqui e agora, no estar na música.

Barcellos (1992) traz um pensamento inclusivo entre todos os estudiosos da música, no qual considera a musicoterapia uma forma de não somente penetrar no ser a partir do seu próprio mundo, mas sim penetrar no ser a partir do seu mundo sonoro, à vista disso é ressaltada a importância de se conhecer a cultura musical do paciente. O setting durante a terapia é arraigado com a cultura que os participantes trazem consigo, e conforme há a troca de momentos de fazer música com outros há a possibilidade de o próprio terapeuta ser trazido para fora do eu mundo interno para a realidade.

O fenômeno musical, tal como o fenômeno lingüístico ou fenômeno religioso, não pode ser corretamente defendido ou descrito sem que se tenha em conta seu triplo modo de existência: como objeto arbitrariamente isolado, como objeto produzido e como objeto percebido (BARCELLOS, 2007, p. 8).

No Brasil a musicoterapia foi trazida pelo Dr. Benezon que foi inspirada por trabalhos semelhantes dessa área.

1.3 Musicoterapia na atualidade e o olhar da música para o desenvolvimento

A escuta musicoterapia descrita por Coelho (2001) faz diálogo entre a escuta clínica e musical, audível e inaudível, ou seja, a terapia está embasada nos trabalhos entre o terapeuta e cliente e não está delimitada e sim livre para diversas possibilidades, pois a música é aberta, um mundo ainda não explorado, apenas ilustrado. Os teóricos musicais explicaram como se faz música, a medicina como a transforma em terapia e a psicologia em como se aplica, mas nenhuma consegui explicar o que é a música. Por esses pontos que ela se torna ilimitada e multifacetada, proporcionando padrões únicos a cada indivíduo não somente via linguagem verbal, mas também através da musical, “em que o ‘sentido’ nos leva à superfície, a um terreno movediço, sem fronteiras” (CRAVEIROS DE SÁ E LABOISSIERE ET all, 2003).

Para Ansdell e Plavicevic (2004), o termo Musicing (musicalidade em ação) mostra a importância da música como uma forma para desenvolvermos a nós mesmos.

A forma de entender a música proposta no Mousikè: teoria e sensibilidade inseridas na formação do caráter do homem e assim da sociedade podem ser percebidas agora no trabalho clínico. A metafisica da harmonia ou música conceitual parece importante para o entendimento atual sobre o funcionamento da mente. O caráter sensível da música envolve o ouvinte em seu espírito. Assim, não apenas os sentimentos mobilizados na experiência com a música que importam, mas também os processos de pensamento envolvidos nesse processo. Corpo e espírito, cérebro e mente é um sistema e não existe em separado. As experiências musicais na musicoterapia revelam esse funcionamento reacional do ser humano como uma engrenagem. (PIAZZETTA, 2010, p. 64).

Com esses saberes é imprescindível ressaltar que para o desenvolvimento de uma criança a música é uma forma não somente de expressão, as também um modo dela se comunicar com a realidade na qual vive. A importância da música para elas, pauta a forma de como as abordaremos, sendo também um instrumento de formação, integração e colaboração. Sendo assim a musicoterapia, ou a música é indispensável para um bom desenvolvimento.

 

REFERÊNCIAS

ALTSHULER, I. The past presente and future of Musical Therapy. In. Musica Therapy. POOLSKY, Edward (ed.), Philosopenical Library, New York, 1954.

BENNETT, R. Uma breve história da música. Zahar: Rio de Janeiro, 1986.

BOLETIM, Á. I. L. DiaLogos: Psicanálise e Arte. Campo Grande, Ágora Instituto Lacaiano, 2007.

LINDOMAR. História da Música. Disponível em: “http://www.infoescola.com/musica/historia-da- musica”. Acesso em: 10 de maio de 2016.

PIAZZETTA, C. M. F. MÚSICA EM MUSICOTERAPIA: estudos e reflexões na construção do corpo teórico da Musicoterapia. Disponível em: <http://www.fap.pr.gov.br/arquivos/File/3-MUSICA_EM_MUSICOTERAPIA.pdf>. Acesso em: 10 de maio de 2016.

ROZA, L. A. G. Freud e o inconsciente, Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

TOMÁS, L. Música e filosofia: estética musical. São Paulo: Conexões musicais, Irmãos Vitale, 2005.

WAZLAWICK, P.; CAMARGO, D; MAHEIRIE, K. Significados e sentidos da Música: uma breve composição a partir da psicologia histórico-cultural. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722007000100013.>. Acesso em: 10 de maio de 2016.

Para citar este artigo:

LIMA, André do Amaral; TOMÉ, Marta Fresneda. O TOM: Um Estudo sobre a Influência da Música no Desenvolvimento Psicossocial. Publicado em: 13 de julho de 2017. Disponível em: <http://blogdapsicologia.com.br/unimar/2017/07/o-tom-um-estudo-sobre-a-influencia-da-musica-no-desenvolvimento-psicossocial/>. Acesso em: 21 de julho de 2017.

O TOM: UM ESTUDO SOBRE A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NO DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL

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