AUTORA: CATARINA MARTINS DE OLIVEIRA, Bolsista PIC/Unimar
ORIENTADORA: MARTA FRESNEDA TOMÉ.
Psicologia/UNIMAR.
E-mail: [email protected]; [email protected]

INTRODUÇÃO

A pesquisa cognominada como “Hei, eu estou aqui! Um estudo psicanalítico sobre crianças em situação de rua” teve como propósito realizar um estudo sobre o desenvolvimento emocional e psíquico de crianças que vivem no ambiente hostil que as ruas apresentam, analisando e observando o comportamento dessas crianças, descrevendo a sua história de vida e caracterizando as possíveis consequências psicológicas de viver à margem da sociedade.

O tema em questão foi escolhido pelo desejo de tirar essas crianças da invisibilidade, mostrando a problemática de violência e exploração que elas enfrentam e despertar o interesse em profissionais de diversas áreas a desenvolverem trabalhos e estudos referentes a essa parte significativa da população brasileira.

A pesquisa caracterizou-se como uma investigação de campo e foi realizada na ONG A MAIS – Associação Multifuncional de Ação e Inclusão Social, localizada na Comunidade do Pau Queimado, no bairro do Tatuapé, na cidade de São Paulo.

A coleta de dados em campo foi empreendida por meio de entrevistas a três crianças da comunidade estudada e posterior aplicação do teste projetivo HTP. Além disso, forma entrevistados dois colaboradores da ONG A MAIS que têm contato direto com as crianças em situação de rua.

O referencial teórico utilizado para embasar as análises dos dados coletados foi a Psicanálise com vertente social. Este texto apresenta de modo resumido as categorias de análise levantadas pelo estudo que foram: 1) desenvolvimento psíquico infantil para a Psicanálise com base no desenvolvimento psicossexual de Freud demonstrando; 2) influência da violência no desenvolvimento psicológico na infância e 3) a potencialidade da psicanálise social na construção de estratégias terapêuticas para crianças marginalizadas. Neste resumo é apresentada uma síntese dos dados coletados até setembro de 2016.

DESENVOLVIMENTO

Para Freud (1953) a personalidade do sujeito é formada nos primeiros anos de vida por meio de conflitos inconscientes entre os impulsos biológicos (impulsos para satisfazer as necessidades físicas como o sono, a fome, respirar, urinar, defecar), e as condições impostas pelo meio social.

Segundo o psicanalista esses conflitos ocorrem a partir de uma sequência inalterável, que são chamadas de fases do desenvolvimento psicossexual. Acredita-se que este desenvolvimento é baseado na teoria da libido; desde os primeiros meses de vida o sujeito já possui energia sexual.

A primeira fase do desenvolvimento psicossexual é a fase oral, quando o prazer sexual está relacionado à cavidade bucal. A fase oral é relacionada ao processo de sucção e a criança alivia sua tensão ao ser alimentada pela mãe que passa a ser o objeto de desejo do bebê.

A segunda fase do desenvolvimento segundo Freud é a fase anal em que a zona de prazer encontra-se na região anal. Essa fase começa por volta do 12º e 18º mês e tem o seu desfecho por volta dos três anos de idade. É nela que a criança irá desenvolver sentimentos sádicos e masoquistas, noção de poder e de propriedade, rivalidade e, então, surge a divisão, como por exemplo, bonito x feio, certo x errado, masculino x feminino.

A próxima fase do desenvolvimento psicossexual é a fase fálica que corresponde ao período de três a seis anos. Nessa fase, a criança irá encontrar prazer nos órgão genitais e é nessa etapa que Freud “reconhece a existência desde a infância de uma verdadeira organização da sexualidade, muito próxima daquela do adulto” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2008).

Nesse período, a criança passa pelo Complexo de Édipo que é quando ela, de maneira inconsciente, sente desejo sexual pelo seu genitor do sexo oposto e um sentimento hostil para com o genitor do mesmo sexo, pois acredita que ele seja o seu maior adversário nessa relação.

Por volta dos seis anos, a criança passa por um período de latência que corresponde a uma repressão dos seus desejos sexuais. A criança passa a entender que é errado desejar seu genitor do sexo oposto, pois ele pertence ao seu genitor do sexo semelhante, portanto ela reprime esse desejo e o sublima em atividades escolares, esportivas e começa a formar seus princípios morais, éticos e sociais; cosntituindo assim, o seu caráter.

A quarta e última fase do desenvolvimento psicossexual teorizado por Freud é a fase genital. Essa fase corresponde ao período de puberdade e a vida adulta e é quando o sujeito retorna aos impulsos sexuais que obtinha na fase fálica, porém, desta vez, de maneira consciente.

Outro ramo que estuda o desenvolvimento psíquico é o da neuropsicologia que investiga a relação entre o sistema nervoso, o comportamento e a cognição. Estudos atuais demostram que as emoções do sujeito têm relação com as estruturas neuronais e que o desenvolvimento neuropsicológico tem relação com acontecimentos vividos pelo sujeito e estimulado pelo ambiente.

Quando o sujeito se encontra situado em ambientes estressantes o cérebro sofre alterações químicas e morfológicas causando alteração no hipocampo, na amígdala e no córtex pré-frontal.

Quando o estresse dura cerca de algumas semanas ele pode ser considerado reversível, porém se for prolongado os danos podem não ser mais reparados. (OLIVEIRA e CUNHA, 2009).

Atualmente, diversas crianças são expostas à violência, exploração, abuso e miséria, causando um alto nível estressante e prejudicando o seu desenvolvimento neurológico, emocional e psicológico. Crianças expostas a esse tipo de estresse possuem certa dificuldade em realizar funções executivas, essas funções correspondem ao planejamento de tarefas (iniciação da atividade, memória da atividade, atenção e inibição dos impulsos durante a atividade). (OLIVEIRA e CUNHA, 2009).

De acordo com alguns estudos neuropsicológicos e de neuroimagem realizados por Oliveira e Cunha por meio da base bibliográfica Medline/PubMed foi possível observar que é necessário um ambiente seguro e estável para que a criança desenvolva uma função executiva saudável e crianças que possuem essa função de maneira desfavorável possuem uma certa dificuldade em se adaptar a ambientes diferentes, o que pode ser o motivo de crianças em situação de rua mudarem constantemente de abrigos e instituições. O referencial teórico utilizado neste trabalho foi o da Psicanálise Social e atualmente, diversos estudos vêm sendo feitos para comprovar que a Psicanálise pode ser utilizada no meio social e não somente dentro da clínica, no divã, com um trabalho longo e de alto custo.

Com o aumento da criminalidade, violência, abuso que vem ocorrendo no mundo contemporâneo, sofrimentos como a drogadição, anorexia, excesso de remédios, síndrome do pânico, sexualização infantil, entre outros, vem tornando-se cada vez mais frequentes.

Portanto, os psicanalistas, inclusive brasileiros, passaram a ter preocupação em tornar a psicanálise acessível ao meio social. A Psicanálise pode ajudar esse mundo contemporâneo a “ressignificar e transformar os elementos simbólicos e causadores de estresse” (OLIVEIRA e MARTINS, 2012, p. 3).

Outro tema que é discutido na pesquisa é a respeito da Psicomotricidade e a Evolução do desenho pois na investigação de campo feita neste trabalho, foi realizada a aplicação do Teste HTP, um teste utilizado para analisar e interpretar como a criança se relaciona com ela mesma e com o ambiente no qual se encontra por meio do grafismo.

A Psicomotricidade estuda o homem a partir do seu intelecto, do seu emocional e do seu aspecto motor. Atualmente, é uma relação entre o sujeito e o meio no qual está inserido e é por meio dela que a consciência se forma. Foi no século XIX que o termo psicomotricidade foi utilizado pela primeira vez.

Segundo a Associação Brasileira de Psicomotricidade, a psicomotricidade é “ciência que
estuda o homem através do seu movimento nas suas diversas relações, tendo como objeto de estudo
o corpo e a sua expressão dinâmica” (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOMOTRICIDADE,
1980 apud RABELO e AQUINO, 2014).

Esse estudo foi caracterizado pelo movimento do corpo e a sua relação com a afetividade, a emoção, o meio ambiente e aos hábitos do indivíduo. Acredita-se que o homem, ao perceber que o seu corpo é um local de sensação, expressão e criação, ele seja capaz de mudar, através da intervenção psicomotora, sua conduta.

O meio familiar é o mais importante para que a criança desenvolva a psicomotricidade. Crianças que estão inseridas em um ambiente familiar seguro que lhe de amparo, carinho e educação possuem uma boa estimulação psicomotora e passa a ter um bom desenvolvimento da percepção e um bom comportamento.

Porém crianças que estão inseridas em um ambiente familiar hostil e que não oferece um amparo e uma segurança acabam adquirindo problemas na sua habilidade social, na sua linguagem e na memória o que acarreta um prejuízo perante o seu desenvolvimento psicomotor.

Os desenhos realizados por crianças não são apenas uma representação artística mas também uma maneira das crianças se expressarem e demonstrar a subjetividade. Foi no século XIX que os psicólogos passaram a descobrir uma certa originalidade nos desenhos infantis e fazer algumas observações sobre o assunto. (BORDONI, 2008).

O desenho da criança é uma maneira dela se comunicar e possui um vocabulário e uma certa construção linguística. Ao realizar o desenho a criança sente satisfação e prazer em deixar a sua marca no lugar onde está desenhando.

O desenvolvimento infantil é marcado pelo desenho e possui cinco estágios (grajuta, pré-esquemático, esquemático, realismo, pseudo naturalismo) formulados por Piaget e em cada estágio do desenvolvimento o desenho possui uma natureza particular.

A pesquisa foi realizada na ONG A MAIS. A sigla ONG é utilizada para designar Organização Não-Governamental. A respeito da definição sobre o conceito dessa expressão não há uma certa concordância. De acordo com Landim (1993) e Gohn (2000) foi na década de 1940 que a expressão ONG foi criada pela ONU – Organização das Nações Unidas com o intuito de indicar “entidades não‐oficiais que recebiam ajuda financeira de órgãos públicos para executar projetos de interesse social, dentro de uma filosofia de trabalho denominada desenvolvimento de comunidade. (MACHADO, 2012, p. 3488).

Portanto ONGs são associações, fundações e sociedades civis que não possuem fins lucrativos e, também, não possuem vínculos com o governo e tem como objetivo ajudar as classes menos favorecidas e criar uma sociedade mais igualitária. As Organizações Não-Governamentais não são engajadas apenas para questões humanas, mas também auxiliam em questões animais, ambientais, entre outras.

“A heterogeneidade das ONGs levou Gohn (2000) a identificar quatro tipos de organizações não‐governamentais atuando no Brasil: as caritativas, as desenvolvimentistas, as ambientalistas e as cidadãs” (GOHN, 2000 apud MACHADO, 2012, p. 3487).

As ONGs caritativas atuam no âmbito de assistência a categorias específicas como menores, mulheres, idosos, entre outros. As ONGs desenvolvimentistas possuem uma preocupação em trabalhar com intervenções para com o meio ambiente através da preocupação com áreas de barragens, reservas ecológicas, reservas indígenas, etc.

As Organizações Não-Governamentais cidadãs possuem uma preocupação quanto cidadania e solidariedade, atuando frente a minorias discriminadas promovendo e participando de questões sociais. Já as de caráter ambiental trabalham com questões de um desenvolvimento autossustentável e preocupam-se com os patrimônios históricos do meio urbano.

No Brasil as Organizações Não-Governamentais surgiram no período da ditadura militar, na época da década de 1960. A princípio as ONGs não eram reconhecidas por esse nome mas sim como entidades assistenciais e ao decorrer dos anos elas foram se autodenominando como ONG.

A ONG A MAIS – Associação Multifuncional de Ação e Inclusão Social foi fundada no ano de 2004 com o intuito de dar assistência à famílias carentes da Zona Leste da cidade de São Paulo e o seu slogan é “Fazer o bem sem ver a quem”.

No ano de 2012 a ONG adotou como sede, para realizar os seus atos voluntários, a comunidade do Pau Queimado. Esta encontra-se localizada entre a Avenida Condessa Elizabeth Mariano, s/nº, e o Viaduto Aricanduva, paralelo ao S.C. Corinthians Paulista, na capital de São Paulo.

Atualmente a ONG conta com cerca de 151 famílias cadastradas e cerca de 192 crianças com idades entre 0 a 13 anos. A ONG busca um local onde possa dar às crianças um acesso ao esporte e à cultura. Alguns dos interesses das crianças são o esporte, o canto, a música ou a dança.

A A MAIS tem a preocupação de criar eventos, como distribuições de arrecadações e ações sociais, para que as necessidades das famílias cadastradas possam ser atendidas. Ações sócias, festas juninas, Páscoa e Natal Solidário, Carnaval Beneficente, distribuição de cestas básicas, roupas, material escolar são alguns dos meios que a ONG utiliza para ajudar as famílias necessitadas da comunidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nas pesquisas feitas até o momento é possível observar que as crianças em situação de rua encontram-se expostas à violência e à exploração, portanto são mais suscetíveis a vivenciarem conflitos psicológicos que podem ser desencadeados no decorrer do desenvolvimento psicossexual.
É possível notar, também, que devido à exposição a um ambiente não favorável as crianças apresentam indícios de sofrimento psíquico em seu grafismo. Espera-se que a pesquisa ajude em diversos trabalhos a respeito de crianças em situação de rua e que torne visível a problemática em que elas vivem despertando o interesse de outros profissionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORDONI T. Descoberta de um Universo: a evolução do desenho infantil [monografia na internet]. 2008 [acesso em 30 março 2016]. Disponível em: http://www.sme.pmmc.com.br/arquivos/matrizes/matrizes_portugues/anexos/texto-01.pdf

LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 11. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

MACHADO, Aline Maria Batista. O Percurso histórico das ONGs no Brasil: Perspectivas e desafios no campo da educação popular, 2012. João Pessoa. Anais… Universidade Federal da Paraíba, 2012.

OLIVEIRA, Déa Maria Moreira de; MARTINS, Geraldo. A importância da Psicanálise na Dinâmica Social do Indivíduo. Revista de Psicologia. [online]. 2012. ISSN 2177 4552.

OLIVEIRA, Paula Approbato de ; SCIVOLETTO, Sandra and CUNHA, Paulo Jannuzzi. Estudos neuropsicológicos e de neuroimagem associados ao estresse emocional na infância e adolescência. Rev. Psiquiatr. Clín. [online]. 2010, vol.37, n.6, pp.271-279. ISSN 0101-6083

RABELO, L. I. K. ; AQUINO, B. G. Relação entre psicomotricidade e desenvolvimento infantil: um relato de experiência. Revista Cientifica da Faminas. [online]. Muriaé. 2014, vol. 10, n. 3.

Para citar este artigo:

OLIVEIRA, Catarina Martins de; TOMÉ, Marta Fresneda. HEI, EU ESTOU AQUI! UM ESTUDO PSICANALÍTICO SOBRE CRIANÇAS EM SITUAÇÃO DE RUA. Publicado em: 24 de agosto de 2017. Disponível em: <http://blogdapsicologia.com.br/unimar/2017/08/hei-eu-estou-aqui-um-estudo-psicanalitico-sobre-criancas-em-situacao-de-rua/>. Acesso em: 22 de setembro de 2017.

HEI, EU ESTOU AQUI! UM ESTUDO PSICANALÍTICO SOBRE CRIANÇAS EM SITUAÇÃO DE RUA