Método que aposta no diálogo com pacientes psiquiátricos reduz uso de medicamentos

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Imagine um tratamento com pacientes psicóticos, depressivos e com outros transtornos graves em que a escuta, o diálogo e  a compreensão holística da pessoa enferma apresentam resultados extremamente positivos, em que até 81% dos pacientes apresentam melhora no quadro e podem, inclusive, voltar ao trabalho em período integral. Imagine esse tipo de tratamento sem a medicalização excessiva e redução no uso das drogas psiquiátricas.

Pois este é  o cenário já vivenciado na Finlândia e trazido ao Brasil por meio de uma palestra apresentada no Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas: Causas, Danos e Alternativas, realizado entre os dias 30/10 a 01/11/2017 na Escola nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), na cidade do Rio de Janeiropelo psicólogo e pesquisador finlandês Jaakko Seikkula, doutor em Psicologia pela Universidade de Jyväskylä, na Finlândia.

Dr. Jaakko Seikkula

Apresentada como a abordagem do o método é apontado pelo pesquisador como alternativa à medicalização excessiva de pacientes psiquiátricos, apresentando resultados promissores e com a redução no uso de medicamentos por esses pacientes.

Baseada no diálogo, na escuta compreensiva e na valorização das experiências sócio-interacionais, a abordagem do Diálogo Aberto demonstrou ser uma grande aliada no tratamento de pessoas que apresentam comportamentos psicóticos, favorecendo a redução do uso de medicamentos e a compreensão das causas do problema, segundo Jaakko Seikkula. O pesquisador abordou o comportamento psicótico e os atuais desafios para o tratamento, dizendo que o comportamento psicótico é mais comum do que se pensa. “Não acredito na existência da enquanto categoria clínica. Não há nada que defina que essas pessoas que apresentam comportamentos psicóticos sejam qualitativamente diferentes das pessoas que não apresentam”, afirmou Jaakko.

Segundo ele, os sintomas psicóticos podem, frequentemente, não estar associados a uma patologia, mas, sim, a estratégias psicológicas para lidar com o estresse de situações vividas.

A psicose pode ser um comportamento reativo natural. O importante é entendê-la como uma reação a algo que aconteceu na vida do paciente, que, por não encontrar outros meios de lidar com aquilo, desencadeou aqueles sintomas
– Jaakko Seikkula

Aproximações e tratamentos clínicos que deixam de considerar esses aspectos, podem, segundo o psicólogo finlandês, prolongar os sintomas psicóticos. “A maioria dos tratamentos começa tardiamente. O nosso sistema de cuidados não está organizado de modo a tratar os pacientes precocemente. Geralmente, a pessoa fica psicótica dois ou três anos antes do primeiro diagnóstico. Dessa forma, a mente dela começa a criar estratégias de sobrevivência que, muitas vezes, a isolam”, discorreu.

Foi apontado ainda que fatores como o diagnóstico tardio e tratamentos inadequados, que não consideram o entendimento da vida humana em sua totalidade, podem acarretar respostas do paciente que não são satisfatórias para o tratamento.

É errado pensar que podemos reduzir os problemas mentais ao reduzir as funções mentais. Não é assim que nós seres humanos somos construídos. Somos construídos para viver em uma interação contínua com parte do nosso corpo, nossa mente e o ambiente social
– Jaakko Seikkula

A compreensão de que o comportamento humano passa a ser reflexo da interação com o meio social em que o mesmo se encontra fundou, na década de 90, uma nova forma de abordagem clínica do paciente psiquiátrico: o Diálogo Aberto.

Princípios da abordagem do diálogo aberto

  • Ajuda imediata ao paciente;
  • Perspectiva em rede;
  • Flexibilidade e a mobilidade;
  • Responsabilidade;
  • Continuidade psicológica;
  • Tolerância à incerteza;
  •  Dialogismo.

Por meio de uma escuta ativa e recíproca, o método tem como princípios ajudar imediatamente o paciente, na tentativa de evitar os diagnósticos tardios; a perspectiva em rede, em que psicólogos, pacientes, familiares e amigos interagem com vistas à condução do tratamento; a flexibilidade e a mobilidade, para adequar o tratamento a cada caso; e o dialogismo, que é apostar na escuta compreensiva e garantir que todas as vozes da rede sejam ouvidas.

A abordagem do Diálogo Aberto também se caracteriza pelo convite para que família e outras pessoas que formam a rede de relacionamentos dos pacientes possam contribuir com dados sobre sua vida e, com isso, ampliar a percepção das origens das reações psicóticas.  “Nos concentramos na geração de diálogo para fazer ouvir todas as vozes nas reuniões terapêuticas. Os clientes são abordados como seres humanos em sua plenitude e não como sintomas”, explicou o pesquisador finlandês.

“De forma concreta, significa que quando alguém começa a apresentar ideias psicóticas em uma reunião, é necessário observar o problema mais importante relacionado a essa resposta de comportamento psicótico. O psicólogo para tudo, observa e, em seguida, pergunta: O que você disse? Você pode me ajudar a entender um pouco mais sobre o seu problema? Dessa forma, há um diálogo sobre este problema, no qual se tenta explorá-lo”, discorreu Jaakko.

Com isso, segundo o pesquisador, é possível a redução da medicação, que altera o funcionamento do sistema nervoso, no tratamento da psicose e da , evitando-se efeitos nocivos dos remédios administrados.

Os clientes são abordados como seres humanos em sua plenitude e não como sintomas
– Jaakko Seikkula

Efetividade do tratamento

Uma pesquisa citada por Jackson, sobre a efetividade da abordagem do Diálogo Aberto em pacientes de Tornio, na Finlândia, mostrou que, em um período de cinco anos, 81% deles não apresentavam sintomas psicóticos persistentes e retornaram ao emprego integral. Citando o filósofo russo Mikhail Bakhtin, Jakko ressaltou a importância do diálogo na constituição do ser humano. “A vida humana é um diálogo aberto. Viver significa participar de um diálogo. Nele, as pessoas participam de forma completa com olhos, lábios, mãos, alma, espirito, corpo e ações. O diálogo é a primeira e última coisa que fazemos. O diálogo não é somente comunicação, é o processo pelo qual nos tornamos humanos em relação a outros, e em relação às respostas do outro”, concluiu Jaakko.

Assista a palestra na íntegra

A palestra proferida pelo Dr. Jaakko Seikkula foi transmitida ao vivo pelo YouTube pode ser assistida na sua integralidade abaixo.

Acesse o canal do YouTube da Vídeo Saúde Distribuidora da Fiocruz para mais conteúdo formativo gratuitamente disponibilizado. Clique aqui.

Qual a sua experiência com esta prática? O que pensa sobre esta pesquisa?

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Esse post foi inspirado e contém trechos e foto de notícia publicada originalmente no CEE-Fiocruz por Luiza Medeiros. Acesse o texto original clicando aqui. Conheça o portal da Fiocruz: clique aqui.