Por quais motivos não se recomenda que o psicólogo (de base psicanalítica) ofereça atendimento clínico às pessoas conhecidas?

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Geralmente, as pessoas que conhecem e são conhecidas por algum psicólogo já desde períodos anteriores à sua formação tendem a buscar, neste último, respostas mágicas para problemáticas que enfrentam em momentos críticos de suas vidas.

Sabemos que este é um tema bastante controverso e polêmico, porém algumas reflexões são necessárias e merecem ser, aqui, destacadas. Ainda que o Código de Ética do profissional psicólogo não o proíba de fato, este tipo de atendimento precisa ser considerado com bom senso e responsabilidade e cabe ao próprio psicólogo tomar as decisões no que se refere às solicitações de tal natureza.

Afinal de contas… Há algum problema em atender um conhecido próximo ou membro da família?

O problema pode estar baseado justamente nas questões relativas ao conforto/desconforto, bem como no que se refere à efetividade das ações terapêuticas e das sessões de atendimento.

Pensando-se na psicoterapia de base psicanalítica, por exemplo, sabe-se que esta trabalha com as técnicas de interpretação e associação livre. Poderia um indivíduo conhecido e próximo associar livremente, enquanto paciente, na presença de alguém que possui um certo significado em sua vida anterior ao atendimento? Não seriam impostas resistências e criadas fantasias em relação às sessões e aos seus conteúdos? Como ficaria a questão da transferência e o seu respectivo manejo em tais situações?

Não somente pensando no lado do paciente, mas também considerando-se a parcela referente ao terapeuta: este gozaria da neutralidade e do “distanciamento” necessário para a fluidez terapêutica da sessão? Seria confortável analisar alguém que, seja familiar ou amigo, já tem a história tão bem conhecida e que pode estar influenciada por sentimentos amistosos e diversos outros mecanismos? Como ficaria o manejo transferencial?

Em suma, vale dizer que atender a conhecidos (que são próximos ou já foram) ou parentes é uma tarefa arriscada e que pode levar à faltas graves no que se refere à eficácia do atendimento e ao âmbito profissional. Não se busca aqui, entretanto, generalizar ou impor, mas sim é impossível não notar que as colocações se fazem contundentes.

Ainda que o Código de Ética não proíba ou discorra tão pormenorizadamente sobre o assunto, vale refletir sobre alguns de seus parágrafos:

DAS RESPONSABILIDADES DO PSICÓLOGO
Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos:
b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente;

k) Sugerir serviços de outros psicólogos, sempre que, por motivos justificáveis, não puderem ser continuados pelo profissional que os assumiu inicialmente, fornecendo ao seu substituto as informações necessárias à continuidade do trabalho.

Refletindo sobre o parágrafo b, a proximidade com o conhecido citado anteriormente poderia ferir tais princípios? Haveria interferência na técnica do lado pessoal do profissional?

Pensando-se no item k, será motivo justificável encaminhar este conhecido para outro colega por querer resguardar toda uma plena condição de conforto e eficácia do processo terapêutico?

De acordo com o site do Conselho Federal de Psicologia (CFP), o Brasil conta com 303.618* psicólogas(os) ao todo. No estado de São Paulo, onde localiza-se a cidade de Marília, por exemplo, o número dos referidos profissionais alcança um total de 93.039* (quase um terço do montante presente nas estatísticas gerais). Não é preciso, em um país de proporções continentais, escolher justamente o psicólogo conhecido. Vários profissionais estão dispostos e distribuídos ao longo do território nacional.

É muito comum o conhecido procurar-nos por ter confiança e simpatia. Acolher é sempre recomendável, mas podemos nos oferecer para ajudá-lo a encontrar outro profissional para assegurar as condições importantes. Pela confiança, ficará mais fácil aceitar outras indicações.

Muito se falou sobre eles, mas… O que exatamente caracteriza um “conhecido”?

Cabe ao psicólogo, orientado pela sua ética, definir este limite. Em aspectos gerais, o conhecido pode ser um familiar, um amigo, um vizinho… Todos aqueles que mantenham ou mantiveram no passado algum contato estreito ou vinculação com a pessoa do psicólogo.

Bem comum, é no próprio meio entre psicólogos (sejam estes estudantes em formação de graduação ou especialização), estes conhecerem outros profissionais psicólogos e acabarem por assim escolher seu psicoterapeuta. É óbvio que estas escolhas ocorrem justamente pela identificação e admiração profissional que o outro desperta (como professor, supervisor, palestrante etc). Cabe à dupla discutir a natureza da sua relação anterior e atual, podendo esta ser impeditiva (por terem estabelecidos vínculos além dos profissionais, por estar envolvendo avaliação formal do aluno no momento atual, entre outras situações) ou, ao contrário, ter sido a oportunidade de se encontrarem. Afinal, como explicamos no parágrafo acima, conhecido não é qualquer um que já conhecemos e, sim, aquele que temos laços mais íntimos direta ou indiretamente. Na relação psicólogo-psicólogo, ainda, refletir sobre a dificuldade de ter que avaliar atualmente o outro como  aluno, estagiário, supervisionando etc.

É necessário, portanto, avaliar as condições e ter bom senso para agir de maneira coerente em sua decisão de atender ou não esta pessoa de proximidade afetiva. Deve-se visar, então, sempre o bem-estar do outro e as possibilidades de sucesso do vínculo e das sessões de terapia.

Procure o(a) seu psicólogo(a) e aventure-se na descoberta de si! A terapia não é um processo mágico, que dá respostas e soluções rápidas e irrefutáveis. Pelo contrário, convida-lhe a percorrer caminhos penosos, difíceis. Sendo assim, não adianta buscar no conhecido um refúgio para tentar “aliviar” a tomada de contato com as suas próprias questões e conflitos, com o seu mundo interno.

E, apesar de ser um processo árduo e mobilizador, é também muito gratificante. Descobrir-se é um movimento constante e que envolve dispêndio de tempo e energia. Descobrir-se e lidar consigo mesmo é algo belo e gradativamente transformador!

Nesta matéria, focalizamos o atendimento clínico psicológico de bases ou orientação psicanalítica. E você, profissional e estudioso de outras teorias e abordagens? O que você pensa sobre o assunto? Contribua com o blog e compartilhe colocações derivadas de sua abordagem, entrando em contato conosco. O que eles (autores e teóricos de sua abordagem) dizem acerca do tema? A sua participação será imensamente apreciada!

*Dados obtidos através do portal do CFP, acessado em 16/11/2017, às 14h00min.

Fontes: CÓDIGO DE ÉTICA DO PROFISSIONAL PSICÓLOGO. Para acessá-lo, clique AQUI.
Dados Estatísticos – SITE CFP. Para acessar o site, clique AQUI.
Psicologia MSN. Para acessar o site, clique AQUI.